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quarta-feira, 15 de abril de 2020

O TÊNIS PARA PRONAÇÃO FAZ O QUE ELE REALMENTE SE PROPÕEM A FAZER?

      Eis aí uma grande pergunta feita pelos corredores: Comprar um tênis que se diz para corredores pronadores entrega o que ele realmente promete? Mas antes de responder esta pergunta, outras, de caráter de esclarecimento precisam também ser feitaas, como por exemplo: Para que serve o tênis na corrida? Seria ele uma imposição do mercado para corrermos calçados? Ou realmente ele é necessário para a proteção do pé e de todo o nosso sistema locomotor? 

Figura 1 -  Quando o tênis é excessivamente macio não faz o seu papel de proteção, não conseguindo evitar uma pronação excessiva como a vista no pé esquerdo do tênis azul. 

      Certamente o surgimento do calçado em geral veio para a proteção de nossos pés em longas caminhadas feitas por nossos longínquos antepassados, passando para um artefato de ostentação e pouca funcionalidade em tempos mais recentes, e hoje tem uma grande funcionalidade, adaptando-se à diversas formas de locomoção em terrenos diferentes, e também aos formatos do segmento protegido por ele, os pés. 

    Como vinhamos falando nos artigos anteriores especificamente sobre a pronação (FALANDO SOBRE PRONAÇÃO e COMO A PRONAÇÃO PODE AFETAR DIRETAMENTE A SOBRECARGA NOS MEMBROS INFERIORES DURANTE A CORRIDA), vamos nos ater somente à questão do tênis na função de controle do movimento, mais especificamente na questão do controle da pronação, neste post. 

        Um tênis com controle de movimento tem em sua estrutura um reforço que pode vir por meio de um EVA mais rígido, ou uma placa mais resistente, ou qualquer estrutura que faça que a região medial do pé não ceda tanto durante o momento em que o pé recebe sobrecarga, após efetuar o toque no chão. 

Figura 2 - uma das formas de tentar controlar uma pronação indesejada é a colocação de material mais rígido que as demais partes da entressola, como a destacada em preto no figura (Malisoux e colaboradores, 2016)

         Mas para responder a pergunta do título citamos dois artigos com bom embasamento e alta qualidade. O primeiro deles é de Malisoux e colaboradores, de 2016, onde sua maior credibilidade está em ser um trabalho denominado duplo cego, ou seja, nem o voluntário, nem o pesquisador sabiam que tipo de tênis o sujeito estava utilizando durante as tentativas, com controle de movimento ou um tênis neutro. Este tipo de estudo trás uma credibilidade, pois elimina muitos vieses que podem ocorrer quando este processo de "cegamento" não ocorre. 

          Neste estudo, 372 corredores receberam calçados e foram acompanhados por 6 meses para identificar o que acontecia com seu organismo durante este período de treinamento, principalmente na questão dos índices de lesões.  O número de lesões total foi menor entre os participantes que receberam o tênis com controle de movimento, sendo que a maior "proteção" foi obervada nos corredores com o pé pronado, avaliado previamente pelo Foot Posture Index (FPI), uma das únicas formas estáticas de avaliação capazes de avaliar o pé, clinicamente, em 3 dimensões, e que já foi apresentado em postagem anterior (COMO A PRONAÇÃO PODE AFETAR DIRETAMENTE A SOBRECARGA NOS MEMBROS INFERIORES DURANTE A CORRIDA).  Os corredores com pés pronados que receberam o tênis neutro tiveram um maior risco de lesão comparados aos corredores com pé neutro. Os autores concluiram que, no geral, o risco foi menor em corredores que receberam os tênis com controle de movimento, e principalmente, os corredores com pés pronados estavam mais protegidos com este tipo de calçado. 



        Outro recente trabalho, com resultados importantes sobre o papel do tênis de controle de movimento da pronação é o de Weir e colaboradores (2019), cujo foco foi o papel destes mesmos dois tipos de tênis (pronação e neutro) na variabilidade de coordenação entre os segmentos estudados. Um trabalho tecnicamente mais complexo, do ponto de vista metodológico, principalmente na análise dos dados. Neste trabalho foi analisado o efeito do uso deste tipo de tênis na segunda metade de uma corrida de 44 minutos. Em duas visitas ao laboratório, eles compararam o uso dos dois tipo de tênis, quando utilizados após 21 minutos de uma corrida a uma velocidade auto selecionada (média de 11,77 km/h), onde neste momento, trocava-se o tênis. Foi realizada análise cinemática e cinética no início, antes da troca do tênis, após a troca do tênis e antes do término do tempo prescrito.

        À partir da corrida inicial, todas as análises de coordenação entre partes dos membros inferiores (MMII) apresentaram um aumento na variabilidade da coordenação. Na corrida de intervenção (após a troca do calçado) este mesmo índice foi maior no tênis neutro comparado ao tênis com mais estabilidade.  Os autores afirmam que esta condição pode ser resultado de o calçado que promove estabilidade ser um perturbador da técnica do corredor e a resposta do organismo ser a de tentar regular esta variação da coordenação. Outra razão levantada pelos autores, talvez seja o fato de tênis para estabilidade do pé gerar maior suporte reduzindo o stress aplicado aos tecidos através de corridas prolongadas. 

          Nestes dois trabalhos podemos ver o quanto um tênis pode ter uma capacidade protetiva dependendo de componentes relativos à anatomia do pé do corredor, assim como, do tipo de calçado, cumprindo assim o seu papel de proteção não somente no solado, ou de traumas, mas sim no controle de um movimento indesejado, como a pronação, qdo feita  a uma alta velocidade e grande amplitude. 
         

Referências Bibliográficas: 

Malisoux, L., Chambon, N., Delattre, N., Gueguen, N., Urhausen, A., & Theisen, D. (2016). Injury risk in runners using standard or motion control shoes: a randomised controlled trial with participant and assessor blinding. Br J Sports Med50(8), 481-487.

Weir, G., Wyatt, H., Van Emmerik, R., Trudeau, M. B., Willwacher, S., Brüggemann, G. P., & Hamill, J. (2019). Influence of neutral and stability athletic footwear on lower extremity coordination variability during a prolonged treadmill run in male rearfoot runners. European journal of sport science, 1-7.




quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

COMO A CORRIDA EM SUBIDA OU DESCIDA AFETA O GASTO ENERGÉTICO E A FORMA DE CORRER?

Em post passado (TREINAMENTO EM LADEIRA É REALMENTE IMPORTANTE PARA A ECONOMIA DE CORRIDA E PERFORMANCE?) descrevemos sobre como a corrida em subida pode auxiliar no treinamento de corrida, abordando principalmente sobre a alteração de variáveis fisiológicas. Hoje abordaremos a questão do ponto de vista da biomecânica e do gasto energético através de um artigo científico de pesquisadores japoneses e finlandeses. 

Seiki e colaboradores (2020) demonstram previamente o quanto a economia de corrida poder ser afetada por uma série de fatores biomecânicos como: padrão da pisada, o deslocamento vertical do centro de massa, o tempo de apoio e suas fases relacionadas às fases excêntricas e concêntricas da corrida, a atividade elétrica do músculo (EMG). Com tudo isso em mãos propuseram em sua investigação a quatificação das características cinemáticas e de EMG, na fase de apoio em três diferentes condições de inclinação (6, 0 e -6 graus).

Os pesquisadores verificaram que existe uma diferença significativa no custo energético nestas três condições, mas não no trabalho mecânico total, conforme demonstrada na tabela abaixo. O que muda nas condições em declinação ou inclinação do piso é a distribuição de trabalho mecânico positivo ou negativo, predominando o negativo na descida e o positivo na subida. 

Tabela 1 - Variáveis relacionadas ao consumo de oxigênio, custo energético e trabalho mecânico. 










Em termos cinemáticos o tornozelo apresentou uma maior amplitude durante a inclinação e menor na descida, mas a máxima flexão desta articulação não diferenciou em nenhuma condição. Já a angulação do joelho diferenciou somente no momento da propulsão sendo maior na inclinação e o Centro de Massa foi maior durante a inclinação. Algumas correlações foram feitas entre gasto energético e EMG no tríceps sural, com a velocidade de flexão plantar e a extensão do joelho. 

Segundo os autores, estes momentos destacados acima podem afetar a coordenação entre a movimentação de joelho e tornozelo, e consequentemente, afetar o gasto energético. O aumento da EMG demonstra isso. 




A aplicação prática desta informação depende de a relacionarmos com um post anterior (QUALQUER UM PODE CORRER COMO OS MARATONISTAS DE ALTA PERFORMANCE?) afirmando sobre uma das diferenças existentes entre corredores recreacionais e de performance, principalmente em relação à variável Centro de Massa. No estudo citado pelo post, de Preece e colaboradores (2019), os autores obtiveram como resultado uma maior elevação do centro de massa em corredores de performance, após a propulsão, comparados aos corredores recreacionais. 

Ao relacionarmos os resultados deste com o post anterior, talvez uma boa estratégia para ensinar os corredores recreacionais a entender o que é elevar o centro de massa, seja exatamente utilizar a subida, para desenvolver novas estratégias neuromotoras e transferi-las para a corrida no plano. Assim, uma melhor técnica de corrida pode levar à redução do curso energético, melhorando assim, a economia de corrida. 

Referência Bibliográfica: 
Seki, K., Kyröläinen, H., Sugimoto, K., & Enomoto, Y. (2020). Biomechanical factors affecting energy cost during running utilising different slopes. Journal of sports sciences38(1), 6-12.

domingo, 22 de setembro de 2019

A FORMA COMO SE CORRE (TÉCNICA) É TÃO IMPORTANTE PARA A ECONOMIA DE CORRIDA E A PERFORMANCE?


Ao observarmos a corrida de um atleta de alto nível parece que seu esforço é bem menor que o nosso quando estamos correndo, muitas vezes à metade da velocidade. O que mais conseguimos observar é a forma como ele se movimenta, dentro de nossa limitação de visualizar os movimentos a somente 30 quadros por segundo. 

Muitos movimentos que ocorrem na corrida não são vistos a olhos nus sendo necessária uma avaliação mais detalhada com cameras de alta velocidade ou sistemas que filmam o movimento em 3 dimensões. Mas além disso, é importante saber se os movimentos realizados podem ser eficientes o suficiente para gerar performance. Para isso é de vital importância a análise da técnica do corredor, em detalhes muitas vezes não imaginados por qualquer um, já que correr é uma atividade que fazemos há tanto tempo, com enorme domínio, e de forma tão eficiente. Será? 

Por isso, a correção técnica tem sido bastante estudada por meio dos métodos de controle de padrões técnicos (corrida com antepé, mediopé ou retropé, Chi Running e Pose Running, dentre outros) (Goss e Gross, 2012). 




            A tentativa da alteração da técnica ocorre pela observância de parâmetros biomecânicos como a forma de tocar o pé ao solo, comprimento e frequência de passada, posicionamento de tronco, etc. Lieberman et al (2010) relatando sobre as análises cinemáticas e cinéticas realizadas em nativos no Quênia, que corriam descalços, e corredores da cidade, correndo calçados, mostraram que em superfícies mais rígidas, a corrida com antepé era geradora de uma menor força de impacto comparados aos corredores calçados. Esta diferença se dá pela forma que tocavam o solo. Ao final, afirmam que a corrida com antepé e mediopé são as formas que mais protegem os membros inferiores de uma intensidade elevada de impacto relacionado às lesões, como o experimentado por grande parte dos corredores, principalmente as ocorridas no joelho.

            
Dentre os métodos citados anteriormente, um deles o Chi Running, é descrito como um método que busca o alinhamento do corpo, mente e o movimento para frente. Neste método os corredores são instruídos a aterrissar com o mediopé, o corpo com leve inclinação à frente, passadas mais curtas com o foco nos membros inferiores relaxados (Goss e Gross, 2012)





Já o Pose Running se baseia no contato com meio e antepé, minimizando o tempo de contato, colocando o pé no solo, e não batendo-o no chão tão vigorosamente. Visa melhorar o aproveitamento da energia elástica havendo a redução do impacto com a projeção do tronco à frente (Goss e Gross, 2012).



Ok, mas e a questão energética? Qual a relação do gasto de energia durante a corrida com a técnica? Qual a relação da performance com a técnica da corrida? Estas perguntas foram feitas por Folland e colaboradores (2017). Neste interessante estudo, eles avaliaram quase 100 homens e mulheres, com tempo médio de 36' e 43', respectivamente, para os 10k, e com uma frequência de treino entre 4 a 5 vezes / semana. Foi feito um levantamento antropométrico e composição corporal, series de corridas máximas e submáximas para analisar as trocas respiratórias e mais de 30 variáveis biomecânicas. 




Um modelo de regressão linear (técnica estatística) identificou que quase 40% da variância na economia de corrida foi explicada por uma combinação da variação da oscilação vertical normalizada pela estatura, em 28%, pelo menor ângulo do joelho no momento do toque no solo, em 9%, e finalmente, pela mínima velocidade horizontal da pelve, em 2,5%  (ver gráfico 1).  

Já em termos de performance considerando os tempos dos 10 km dos corredores avaliados, a mesma técnica estatística obteve que 30 % da variância neste fator (performance) foi explicada por uma combinação do ângulo da tíbia no toque do calcanhar no solo, em 10%, pela mínima velocidade horizontal da pelve, em 9,9%, pela relação entre o tempo de contato e o tempo de voo, denominada de Duty Factor, em 6,4%, e finalmente,  pela média do ângulo de extensão do tronco durante toda a passada, em 4,2% (ver gráfico1). 



Gráfico 1 - Demonstração da percentual de contribuição de cada variável destacada na composição da Economia de Corrida e na performance (melhor tempo dos 10k). (Modificado de Folland e colaboradores, 2017)
Legenda: DF - Duty Factor - relação entre tempo de contato do pé com o solo e tempo em fase aérea; xTAmean - média do ângulo de extensão do tronco durante toda a passada; VyPmin - mínima velocidade horizontal da pelve; xKAGC,min - menor ângulo do joelho no momento do toque no solo; AzPGC,H - variação da oscilação vertical normalizada pela estatura; xSATD - angulo da tíbia no toque do calcanhar no solo.

Descrevendo estas variáveis destacadas por Folland e colaboadores (2017), eles acreditam que a oscilação vertical (OV) da pelve é a variável que melhor reflete a rigidez dos membros inferiores durante a fase de apoio, já que a oscilação do centro de massa pode ter a influência dos movimentos dos braços, tronco e cabeça. Uma maior oscilação vertical envolve mais trabalho contra a gravidade, aumentando o tempo e a força necessárias para se contrapor a esta excessiva oscilação. Sendo assim, membros com complacência controlada (não muito rígido, nem tão pouco, muito flexivel), conseguem oferecer um retorno aceitável em termos de aproveitamento ótimo da energia elástica, aliada a uma menor quantidade de energia concêntrica proveniente dos músculos envolvidos. Isto acaba tendo uma ótima relação com a EC. 

Com relação às variaveis cinemáticas pode-se destacar, principalmente no momento do toque do pé ao chão, um joelho mais estendido e um maior angulo da tíbia em relação ao solo, assim como de dorsi flexão, trazendo uma maior amplitude de movimento durante todo o tempo de contato com o solo, e consequentemente, aumentando-o. O reflexo disto poderia ser um maior gasto energético através de uma maior uso da energia excêntrica e, posteriormente, da concêntrica, para reacelerar. 

Enfim, dado o apresentado pelos autores, a preocupação maior com a técnica de corrida tem que ser com os parâmetros envolvidos na EC e na performance, neste post destacamos a oscilação vertical e alguns parâmetros cinemáticos. No próximo post continuaremos a mostrar outras variáveis tão importantes quanto a estas. 


Referências Bibliográficas: 


Goss, D. L., & Gross, M. T. (2012). A review of mechanics and injury trends among various running styles. NORTH CAROLINA UNIV AT CHAPEL HILL.

Lieberman, D. E., Venkadesan, M., Werbel, W. A., Daoud, A. I., D’andrea, S., Davis, I. S., ... & Pitsiladis, Y. (2010). Foot strike patterns and collision forces in habitually barefoot versus shod runners. Nature463(7280), 531.

Folland, J. P., Allen, S. J., Black, M. I., Handsaker, J. C., & Forrester, S. E. (2017). Running technique is an important component of running economy and performance. Medicine and science in sports and exercise49(7), 1412.




quinta-feira, 1 de agosto de 2019

ALTERAR O TIPO DE PISADA É BENÉFICO AO CORREDOR?

Em duas postagens anteriores foram abordadas a questão da corrida com retropé e antepé do ponto de vista da economia de corrida (https://bit.ly/32vyvDN) e da performance (https://bit.ly/2YcDtHo). Para quem ainda não leu nada à respeito do tipo de pisada, estamos falando sobre efetuar o toque do pé  com o calcanhar (retropé), com a ponta do pé (antepé) e com a ponta do pé e, sequencialmente, o calcanhar (meiopé) para posterior propulsão com o antepé nas três situações. 


E como dito em posts anteriores, muito da forma como utilizamos a pisada depende da velocidade com que corremos e do padrão que utilizamos desde quando aprendemos a correr. 


Figura 1 - Ilustração da corrida com antepé (esquerda) e da corrida com retropé (direita)


Há um bom tempo, autores como Irene Davis e Daniel Lieberman apresentam estudos sobre os benefícios da corrida com ante e mediopé em termos de redução de lesão, mas como ciência é a contraposição de idéias,  e isso resulta na geração de mais dúvidas, apresentamos aqui as idéias de outro estudioso da corrida, o professsor Joseph Hamill, questionando os benefícios da troca do tipo de pisada de retropé para antepé. 

Acreditamos que esta contraposição seja importante para que você, leitor, possa tirar as suas conclusões, e se ainda tiver duvidas, continuar debatendo à respeito para tornar o seu posicionamento mais embasado. 

Considerando-se a performance dos fundistas dos tempos atuais, o artigo aqui escolhido, de Hamill e Gruber, demonstra dois estudos que se contrapõem em termos de apresentação de dados sobre o uso do antepé ou retropé na corrida para a população de corredores africanos, talvez os atletas mais observados na atualidade por conta de suas performances recentes. Um dos estudos, do professor Lieberman, apresenta dados da predominância da corrida com antepé mesmo quando os corredores africanos correm calçados e, outro estudo de Hatala e colaboradores, demonstrando que 72% dos corredores africanos que correm descalços utilizam o retropé em suas corridas, sendo avaliados em várias regiões da Africa. Ou seja, existe uma discordância sobre a utlização do antepé e retropé na população que mais se destaca nas corridas de fundo nos dias atuais. 

Professor Hamill e Gruber relatam as razões utilizadas hoje em dia para a sugestão  da troca do tipo de pisada: 

1. Economia de energia (olha ela ai novamente, ver nosso post ENTENDENDO O CONCEITO DE ECONOMIA DE CORRIDA); 
2. Redução da magnitude de impacto e da velocidade em que ele ocorre (taxa de impacto)
3. Redução do risco de lesões relacionadas à corrida. 

À partir deste ponto apresentaremos as idéias de Hamill e Gruber contrapondo estes argumentos. 

Quanto à influência da troca de pisada na Economia de Corrida (EC) o nosso post anterior já demonstrou que isso não ocorre quando apresentamos o trabalho de Roper e colaboradores (https://bit.ly/32vyvDN), mas Hamill e Gruber ainda apresentam outros trabalhos com o mesmo argumento, onde o estudo mais interessante, demonstra que  quando os participantes correram com sua forma não habitual, o grupo que corria com retropé habitualmente demonstrou um aumento no consumo de oxigênio (aumento de gasto energético) ao correr com antepé, e o grupo que corria habitualmente com antepé, não teve este aumento do consumo de O2 quando correu em retropé.  

Outro estudo citado pelos autores destaca a questão da maior oxidação de carboidrato quando se corre com antepé em velocidades baixas e moderadas, demonstrando que não existe economia de substrato. Esta condição de corrida pode acelerar a diminuição dos estoques de carboidrato, dificultando a manutenção de uma corrida de maior duração, já que este substrato é necessário para a utilização de gordura nas corridas como meias, maratonas completas ou ultramaratonas.  E ainda citam um terceiro estudo mostrando que corredores de ante e mediopé tendem a correr com retropé em situação de fadiga nas corridas de longa duração.  Com isso contrapõem a razão de maior economia onde o argumento utilizado é o aproveitamento da energia elástica do músculo quando este alonga e rapidamente se contrai, mas isso somente ocorre em corridas de velocidades maiores. 


Figura 2 - Observando a forma como se faz o toque do pé no piso. 


Quanto ao impacto, ao se observar o comportamento da força de reação do solo, a qual chamamos de impacto, em cada tipo de pisada percebemos que existe uma diferença em sua manifestação. Veja no gráfico à seguir que a corrida no retropé (RF) apresenta dois picos (pico de impacto e pico ativo) e na de antepé (FF) somente o pico ativo. No que implica estas condições? 

Gráfico 1 - Demonstrando o comportamento da força de reação do solo (impacto) nos membros inferiores quando o pé está em contato com o solo em cada tipo de pisada: retropé (RF) e antepé(FF). Pico de impacto é a força que ocorre muito rapidamente, logo no início da pisada. Pico ativo é a força que geramos durante a propulsão (ponto mais alto das curvas.


Segundo uma análise feita em relação ao tempo, Hamill e Gruber não questionam a existência do pico de impacto (Impact Peak), mas fazem questão de demonstrar a ocorrência deste pico, através de outro tipo de análise, na faixa de frequencia de 10 a 20 Hz, como demonstrado no gráfico 2. Isto significa que a informação do gráfico 1 de inexistência de um pico passivo não procede seguindo esta outra análise. A corrida com antepé apresenta este impacto mas ainda com uma amplitude menor que na corrida com retropé. Lembrando que o pico passivo e, mais especificamente, uma maior velocidade de sua ocorrência são indicativos que sugerem uma maior possibilidade de lesões. 

Gráfico 2- Gráfico demonstrando a manifestação da amplitude do impacto em diferentes frequencias nos membros inferiores nas duas pisadas: retropé (RF) e no antepé (FF)

Outro ponto destacado pelos autores com relação ao impacto e ao tipo de pisada é como esta relação pode interferir no tipo de lesão que pode surgir. Hamill e Gruber destacam  estudos onde foram destacadas a pisada com retropé sendo melhor para alguns parâmetros e a pisada com antepé para outros parâmetros. A alteração de pisada de retropé para antepé pode diminuir a demanda na articulação do joelho, mas aumentar no tornozelo e pé, e vice versa. Isso sugere que a troca de pisada  pode gerar, como resultado, uma exposição a sobrecarga em regiões não adaptadas a isso. Portanto pode-se atenuar a sobrecarga no joelho, mas, dependendo de como for esta troca, aumenta-se a sobrecarga em tornozelo e nas articulações e ossos dos metatarsos, no caso da troca da pisada de retropé para antepé. 

E por fim, quanto ao argumento relacionado ao risco de lesões, do ponto de vista epidemiológico, os autores destacaram 3 estudos que não chegaram a conclusão de existência de algum tipo de pisada menos lesivo onde, somando os indivíduos estudados nos 3 estudos, chegou-se a quase 2 mil corredores. Outros 2 estudos demonstram os locais das lesões que ocorreram em corredores de antepé: dor na região dorsal do pé, fraturas por stress nos metatarsos, e tendinites no tendão do calcâneo e tibial posterior. E outro estudo não demonstrou diferença na taxa de lesões, nem tão pouco na performance e na quilometragem rodada indicando a inexistência de benefício com algum tipo de pisada. Qualquer colocação diferente desta, Hamill e Gruber classificam como uma afirmação especulativa, já que os trabalhos científicos não conseguem demonstrar um tipo de pisada menos lesivo. 

Para concluir, os autores afirmam que a alteração do tipo de pisada pode resultar um menor estresse no tecido mais utilizado durante o padrão habitual de corrida, podendo levar à possibilidade de uma segunda lesão. A troca pode ser benéfica para alguns corredores, mas os dados atuais da literatura ainda não são capazes de  recomendar a troca para a maioria dos corredores, principalmente os recreacionais. 


Referência: 

Hamill, Joseph, and Allison H. Gruber. "Is changing footstrike pattern beneficial to runners?" Journal of Sport and Health Science  (2017): 146-153.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

CORRER COM ANTEPÉ ASSEGURA UMA BOA PERFORMANCE?

Aprofundando um pouco no que havíamos abordado anteriormente, no post sobre a economia de corrida (https://bit.ly/2XUnjgw)  e, posteriormente, sobre como cada tipo de pisada não influencia nesta variável (https://bit.ly/32vyvDN), apresentamos um interessante e atual levantamento sobre o tipo de pisada em maratonistas de elite, desmistificando a questão de que a melhor performance está relacionada ao tipo de pisada.

Mas antes gostaríamos de apresentar o grau de complexidade quanto a questão da melhora da performance na corrida de longa duração. Veja o quadro abaixo retirado de uma importante estudo de 20 anos atrás, mas com citações em quase 1000 trabalhos científicos por todo o mundo, até os dias atuais.

Fig 1- Esquema dos fatores determinantes da performance em corridas de endurance (Paavolainen et al, 1999)

Observando o quadro, de baixo para cima, percebemos que a performance na corrida de longa duração depende de 4 grandes variáveis, sendo elas relativas ao consumo máximo de oxigênio (VO2max), ao limiar anaeróbico (LT), à Economia de Corrida (Running Economy), e a uma variável determinada pelos autores como VMart (velocidade mantida por 20 segundos em um teste incremental, onde em cada estágio houve o aumento de 0,35 m/s, com 100 segundos de recuperação. V Mart era a velocidade obtida no ultimo estágio em que o atleta consegue correr os 20 segundos completos).

Seguindo a nossa linha de raciocínio desde o segundo post (https://bit.ly/2XUnjgw), e abordando especificamente à EC, percebemos que, Paavolaine e colaboradores (1999) descrevem esta variável como dependente da Potência aeróbia, assim como da capacidade neuromuscular (veja as setas que chegam à Running Economy, no quadro), onde uma parte da questão neuromuscular está relacionada com a mecânica da corrida, e hoje ainda abordaremos o tipo de pisada como uma menor fração da mecânica da corrida.





Dentro do que abordamos anteriormente, sobre a não influência da pisada na EC (https://bit.ly/32vyvDN), pode-se considerar que a decisão sobre a forma de correr está muito mais relacionada à velocidade com que a corrida é realizada, assim como ao histórico motor de cada corredor.

Com relação à velocidade, diversos autores já demonstraram que o seu aumento eleva o percentual de corredores que utilizam o tipo de pisada com medio e antepé, em provas de 15k a maratona, onde os atletas de elite apresentam um percentual maior de corredores com este tipo de pisada, e os corredores recreacionais apresentam percentuais extremamente baixos de utilização desta forma de correr. (Hasegawa et al 2007; Larson et al 2011;  Kasmer et al ,2013; Hatala et al , 2013) 

Com relação ao histórico motor de cada corredor, a prática da corrida durante a sua vida determinará a forma de correr, assim, um velocista dificilmente será um corredor de retropé mesmo na situação de uma corrida de longa duração. Lieberman e colaboradores (2010) demonstraram que 91% dos corredores quenianos avaliados, com um histórico de uso de calçados recente, ainda continuavam correndo com antepé e mediopé. Enquanto que ao calçarem um tênis este percentual caiu para 72%. Percebe-se com este dado o quanto um padrão motor é determinante na forma de se locomover através da corrida.



Mas voltando ao levantamento citado no primeiro parágrafo, Hanley e colaboradores (2019) classificaram a pisada de 71 corredores e 78 corredoras no Campeonato Mundial de Atletismo em 2017, cujas performances na maratona deste evento estão apresentadas abaixo: 


Tabela 1- Caracterização dos corredores(as) quanto à suas performances na maratona no Campeonato Mundial de Atletismo em 2017. ( All finishers - todos os corredores (as) que terminaram a prova - Top 50% - os 50% mais rápidos ; Bottom 50% - os 50% mais lentos; %of PB - percentual acima do melhor tempo para a prova).



Ao verificarmos os resultados de como estes excelentes corredores pisam percebemos que não é a maioria que utiliza a corrida com antepé para correr. Vejam os gráficos apresentados pelos autores. 

Figura 2 - Distribuição do tipo de pisada em corredoras Retropé (RFS), Médiopé (MFS) e Antepé (FFS). Percebam que existem algumas corredoras com assimetria, principalmente entre retropé e médiopé. Os números dos circulos mostram a quantidade de corredoras com cada tipo de pisada. 
Figura 3 - Distribuição do tipo de pisada em corredores Retropé (RFS), Médiopé (MFS) e Antepé (FFS). Percebam que existem alguns corredores com assimetria, principalmente entre retropé e médiopé. Os números dos circulos mostram a quantidade de corredores com cada tipo de pisada.  
 As filmagens para determinação da pisada foram feitas em 4 momentos (4 voltas) e isso permitiu visualizar a tendência de aumento de utilização do retropé de acordo com a evolução da prova, tanto para homens como para mulheres, ao visualizarmos o aumento do número no círculo do retropé (RFS). Nas mulheres de 51 para 57 corredoras e nos homens de 37 para 47 corredores. 

Com relação ao mediopé (MFS) percebe-se uma tendência à manutenção nas mulheres (21 a 19 corredoras) e uma tendência à diminuição nos homens  (30 para 21 corredores). Já para a corrida de antepé percebe-se a manutenção e até a diminuição de um pequeno número de corredores. Lembrando que todos eles são corredores com excelentes tempos na maratona, obviamente, comparados conosco, meros mortais no mundo da corrida. 

Uma observação interessante é o maior número de mulheres correndo com retropé comparados aos homens, e um maior número de corredores de mediopé comparados às corredoras. Novamente entra a questão da velocidade já abordada anteriormente. Com o aumento da velocidade existe uma tendência à modificação no tipo de pisada, e como os homens correm mais rápidos, natural a manifestação de mais corredores com medio e antepé comparados às atletas. 

O mais interessante deste estudo são os dados apresentados terem sido coletados no ambiente de competição, demonstrando uma validade ecológica importante, pois os atletas não foram expostos a uma situação de experimento, e sim de competição real, tendo que se qualificar para participar do Campeonato Mundial, ou seja, a amostra do experimento é de extrema qualidade para identificar os fatores propostos. 

Como conclusão, os autores sugerem que não existe um padrão ótimo de pisada pensando em termos de performance e, além disso, afirmam que os atletas não devem ser encorajados a modificar a sua pisada, mas sim, deixa-las se manifestar naturalmente, quando o objetivo for a performance. 



Referências: 

- Paavolainen, Leena, et al. "Explosive-strength training improves 5-km running time by improving running economy and muscle power." Journal of applied physiology  (1999): 1527-1533.

- Hasegawa, Hiroshi, Takeshi Yamauchi, and William J. Kraemer. "Foot strike patterns of runners at the 15-km point during an elite-level half marathon." Journal of Strength and Conditioning Research  (2007): 888.


- Larson, Peter, et al. "Foot strike patterns of recreational and sub-elite runners in a long-distance road race." Journal of sports sciences (2011): 1665-1673.


- Kasmer, Mark E., et al. "Foot-strike pattern and performance in a marathon." International journal of sports physiology and performance (2013): 286-292.


- Hatala, Kevin G., et al. "Variation in foot strike patterns during running among habitually barefoot populations." PloS one (2013): e52548.


- Lieberman, Daniel E., et al. "Foot strike patterns and collision forces in habitually barefoot versus shod runners." Nature (2010): 531.



- Hanley, Brian, et al. "Most marathon runners at the 2017 IAAF World Championships were rearfoot strikers, and most did not change footstrike pattern." Journal of biomechanics (2019).


sexta-feira, 5 de julho de 2019

CORRER COM ANTEPÉ OU RETROPÉ NÃO INTERFERE NA ECONOMIA DE CORRIDA, MAS PODE DIMINUIR DORES RELATIVAS À SINDROME PATELOFEMORAL

Em 2013 fiz um post sobre correr com tênis minimalista e sua influência no tempo de uma prova (https://bit.ly/2IPTw4y) . Neste estudo os autores concluíram que o uso dos tênis minimalistas promovem uma maior economia de corrida (EC) comparado ao uso dos tênis tradicionais, mas correr com o retropé ou antepé não interfere nesta variável. 

Na semana passada introduzimos o conceito de EC demonstrando quantas variáveis pode influenciar na velocidade com a qual você gasta menos energia para correr. (Entendendo o Conceito de Economia de Corrida)

Fig.1 - Corrida com antepé (A) e corrida com retropé (B)

Hoje apresentamos à vocês um recente estudo cuja a proposta foi determinar os efeitos do retreinamento da corrida de retropé para antepé após 6 semanas de um período de intervenção. Foram analisadas variáveis relativas à EC na condição aguda e crônica, e também um mês após a intervenção feita com retreinamento de técnica de corrida. Além disso, também foi verificado o efeito deste retreinamento na dor referida em joelhos nos corredores com sindrome patelofemoral. 


Neste estudo, 16 participantes se submeteram a 8 sessões de retreinamento à frente do espelho durante um período de 2 semanas, onde 8 deles foram orientados e incentivados a correr com antepé. Os demais receberam orientação somente incentivando a manutenção da corrida que vinham fazendo, com retropé. Todos utilizaram o mesmo calçado tradicional. 

Os resultados obtidos pelos autores demonstram que a alteração da corrida de retropé para antepé não provocou alteração, de forma estatisticamente significativa, nas três variáveis mensuradas, de forma aguda (pre), crônica (post) e um mês após o retreinamento entre os grupos (Follow-up). 




























Fig 2.  Indivíduos que correram com retropé (control) e com antepé (Exp). Escala visual analógica (VAS Score).
Variáveis: Consumo de oxigênio  (VO2), Frequencia Cardíaca (HR) e coeficiente respiratório (RER)

Outro resultado obtido pelo estudo foi referente à dor sentida no joelho. Com a intervenção houve dimunuição da dor referida pelos corredores, através de uma escala visual analógica (VAS) onde na condição pré estava em 5,3 pontos, em uma escala de 0 a 10, e após o retreinamento para corrida com antepé,  caiu para 1 ponto. 

Fig 3.  Comportamento da dor pela Escala Visual Analógica (Vas Score) na condição pré retreinamento (Pre), na condição pós retreinamento (Post) e um mês após a intervenção (Follow-up) em indivíduos que correram com retropé (control) e com antepé (Exp).

Como conclusão, o estudo apresenta a semelhança em termos das variáveis relacionadas à EC após 2 semanas de retreinamento da forma de pisar, de retropé para antepé, assim como um mês após o retreinamento. Mas houve uma redução significativa da dor no joelho, suportando a ideia de que esta pode ser uma estratégia de administrar as dores no joelho de corredores com sindrome patelofemoral. 

Um efeito adverso verificado pelos autores após um mês do retreinamento  de corrida com antepé foi a queixa de dores no tornozelo, após correr, em 2 dos 8 corredores. Ambos efetuaram treinos com mais de 6,5 km com antepé. Isso demonstra a necessidade de uma transição mais sutil para a corrida com antepé. Abordaremos futuramente sobre esta transição. 


Roper, J. L., Doerfler, D., Kravitz, L., Dufek, J. S., & Mermier, C. (2017). Gait retraining from rearfoot strike to forefoot strike does not change running economy. International journal of sports medicine38(14), 1076-1082.