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domingo, 3 de maio de 2020

A PRONAÇÃO EXCESSIVA TAMBÉM PODE AFETAR A SAÚDE DA REGIÃO LOMBOPÉLVICA?

      

     Este é o quarto texto que postamos especificamente sobre a questão da pronação do pé, onde no primeiro (FALANDO SOBRE PRONAÇÃO) abordamos a questão do que seria este movimento em nossos pés. Posteriormente, no texto (COMO A PRONAÇÃO PODE AFETAR DIRETAMENTE A SOBRECARGA NOS MEMBROS INFERIORES DURANTE A CORRIDA), abordamos as consequências da pronação em termos de sobrecarga no corpo dos corredores, e mais recentemente, destacamos o papel dos calçados de controle de movimento na pronação (O TÊNIS PARA PRONAÇÃO FAZ O QUE ELE REALMENTE SE PROPÕEM A FAZER? ). Hoje, à partir de um artigo recente de Yazdani e colaboradores (2019), levantaremos uma possibilidade sobre uma possível relação existente entre a condição de pronação excessiva e uma consequente ação exagerada e atrasada da musculatura lombopélvica, durante a fase de apoio da marcha. 


     Muito se fala sobre problemas e dores na coluna na população em geral e também em corredores. E hoje está muito claro o conceito do Core na região abdominal, preconizado nas duas ultimas décadas, principalmente com o crescimento do Pilates, com a denominação do "Power House". Por tal motivo, todos os exercícios que envolvem um condição de estabilização da coluna tomaram um vulto enorme, e são quase que obrigatórios em qualquer sequência de exercícios para corredores ou pessoas com queixa de lombalgia. 


       Assim, o conceito de CORE pode ser definido como um aumento ou restauração da capacidade do sistema neuromuscular de controlar e proteger a coluna vertebral de novas ou recorrentes lesões (Hodges, 2003).


      Este conceito foi muito utilizado para a região abdominal na busca de uma forma de atenuar as frequentes dores lombares em toda a população. Mas obviamente, existem outras partes de nosso corpo em que há a mesma necessidade de estabilização, e uma delas é exatamente o pé. 

      Da mesma forma, se este conceito for aplicado ao pé, tem-se a adaptação para o Foot Core, proposto por McKeon e colaboradores (2015) onde, dada a grande mobilidade do pé pela sua grande quantidade de ossos articulando-se, assim como, da sobrecarga recebida, como a coluna vertebral, há a necessidade de uma condição onde a musculatura desta região controle todos os movimentos possíveis de todas estas articulações, tornando o movimento mais seguro para todo o corpo.




       Yazdani e colaboradores (2019) demonstraram uma relação entre uma condição de pronação excessiva, ou seja, falta de foot core, e uma maior atividade dos músculos da região lombopélvica durante o andar. Os autores demonstraram que o grupo de mulheres com hiperpronação apresentou uma maior pico de força nos músculos eretores da coluna, iliopsoas e músculos abdominais, comparadas às mulheres sem pronação excessiva. Além disso, o pico de força alcançado ocorreu mais tardiamente pelo grupo com hiperpronação. 

       Os autores afirmam que esta maior atividade muscular dos músculos citados mantém a ideia de uma tentativa de proteção da região lumbopélvica em pessoas com pronação excessiva. Esta hipótese também foi apresentada em indivíduos como dores lombares, lembrando que as mulheres participantes eram assintomáticas, ou seja, sem queixa alguma de dores. A sugestão fornecida pelos autores é a de que em pessoas com pronação excessiva, o controle dos movimentos no plano sagital é alterado. 

       Destacamos que na corrida, a condição de apoio simples promove maior sobrecarga no pé com um possível surgimento ou amplificação destas condições de pronação excessiva. Enaltecemos então a necessidade de entender o conceito de foot core, já que boa parte do controle deste movimento do pé depende da musculatura intrínseca e extrínseca da mesmo. Desta forma, trabalhar o foot core, além de dar mais segurança à sua corrida, como um dos fatores de atenuação de lesões no joelho, também pode ser mais um fator para diminuir a possibilidade de problemas na região lombopélvica. Este seria o nosso pressuposto, baseado nos artigos aqui destacados, esperando que estes ou outros pesquisadores façam esta pesquisa, utilizando como movimento a corrida, para que tenhamos informações mais acertivas e testadas à respeito. 




Referências Biliográficas: 

Hodges, P. W. (2003). Core stability exercise in chronic low back pain. Orthopedic Clinics, 34(2), 245-254.

McKeon, P. O., Hertel, J., Bramble, D., & Davis, I. (2015). The foot core system: a new paradigm for understanding intrinsic foot muscle function. Br J Sports Med, 49(5), 290-290.

Yazdani, F., Razeghi, M., Karimi, M. T., Bani, M. S., & Bahreinizad, H. (2019). Foot hyperpronation alters lumbopelvic muscle function during the stance phase of gait. Gait & posture, 74, 102-107
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quarta-feira, 15 de abril de 2020

O TÊNIS PARA PRONAÇÃO FAZ O QUE ELE REALMENTE SE PROPÕEM A FAZER?

      Eis aí uma grande pergunta feita pelos corredores: Comprar um tênis que se diz para corredores pronadores entrega o que ele realmente promete? Mas antes de responder esta pergunta, outras, de caráter de esclarecimento precisam também ser feitaas, como por exemplo: Para que serve o tênis na corrida? Seria ele uma imposição do mercado para corrermos calçados? Ou realmente ele é necessário para a proteção do pé e de todo o nosso sistema locomotor? 

Figura 1 -  Quando o tênis é excessivamente macio não faz o seu papel de proteção, não conseguindo evitar uma pronação excessiva como a vista no pé esquerdo do tênis azul. 

      Certamente o surgimento do calçado em geral veio para a proteção de nossos pés em longas caminhadas feitas por nossos longínquos antepassados, passando para um artefato de ostentação e pouca funcionalidade em tempos mais recentes, e hoje tem uma grande funcionalidade, adaptando-se à diversas formas de locomoção em terrenos diferentes, e também aos formatos do segmento protegido por ele, os pés. 

    Como vinhamos falando nos artigos anteriores especificamente sobre a pronação (FALANDO SOBRE PRONAÇÃO e COMO A PRONAÇÃO PODE AFETAR DIRETAMENTE A SOBRECARGA NOS MEMBROS INFERIORES DURANTE A CORRIDA), vamos nos ater somente à questão do tênis na função de controle do movimento, mais especificamente na questão do controle da pronação, neste post. 

        Um tênis com controle de movimento tem em sua estrutura um reforço que pode vir por meio de um EVA mais rígido, ou uma placa mais resistente, ou qualquer estrutura que faça que a região medial do pé não ceda tanto durante o momento em que o pé recebe sobrecarga, após efetuar o toque no chão. 

Figura 2 - uma das formas de tentar controlar uma pronação indesejada é a colocação de material mais rígido que as demais partes da entressola, como a destacada em preto no figura (Malisoux e colaboradores, 2016)

         Mas para responder a pergunta do título citamos dois artigos com bom embasamento e alta qualidade. O primeiro deles é de Malisoux e colaboradores, de 2016, onde sua maior credibilidade está em ser um trabalho denominado duplo cego, ou seja, nem o voluntário, nem o pesquisador sabiam que tipo de tênis o sujeito estava utilizando durante as tentativas, com controle de movimento ou um tênis neutro. Este tipo de estudo trás uma credibilidade, pois elimina muitos vieses que podem ocorrer quando este processo de "cegamento" não ocorre. 

          Neste estudo, 372 corredores receberam calçados e foram acompanhados por 6 meses para identificar o que acontecia com seu organismo durante este período de treinamento, principalmente na questão dos índices de lesões.  O número de lesões total foi menor entre os participantes que receberam o tênis com controle de movimento, sendo que a maior "proteção" foi obervada nos corredores com o pé pronado, avaliado previamente pelo Foot Posture Index (FPI), uma das únicas formas estáticas de avaliação capazes de avaliar o pé, clinicamente, em 3 dimensões, e que já foi apresentado em postagem anterior (COMO A PRONAÇÃO PODE AFETAR DIRETAMENTE A SOBRECARGA NOS MEMBROS INFERIORES DURANTE A CORRIDA).  Os corredores com pés pronados que receberam o tênis neutro tiveram um maior risco de lesão comparados aos corredores com pé neutro. Os autores concluiram que, no geral, o risco foi menor em corredores que receberam os tênis com controle de movimento, e principalmente, os corredores com pés pronados estavam mais protegidos com este tipo de calçado. 



        Outro recente trabalho, com resultados importantes sobre o papel do tênis de controle de movimento da pronação é o de Weir e colaboradores (2019), cujo foco foi o papel destes mesmos dois tipos de tênis (pronação e neutro) na variabilidade de coordenação entre os segmentos estudados. Um trabalho tecnicamente mais complexo, do ponto de vista metodológico, principalmente na análise dos dados. Neste trabalho foi analisado o efeito do uso deste tipo de tênis na segunda metade de uma corrida de 44 minutos. Em duas visitas ao laboratório, eles compararam o uso dos dois tipo de tênis, quando utilizados após 21 minutos de uma corrida a uma velocidade auto selecionada (média de 11,77 km/h), onde neste momento, trocava-se o tênis. Foi realizada análise cinemática e cinética no início, antes da troca do tênis, após a troca do tênis e antes do término do tempo prescrito.

        À partir da corrida inicial, todas as análises de coordenação entre partes dos membros inferiores (MMII) apresentaram um aumento na variabilidade da coordenação. Na corrida de intervenção (após a troca do calçado) este mesmo índice foi maior no tênis neutro comparado ao tênis com mais estabilidade.  Os autores afirmam que esta condição pode ser resultado de o calçado que promove estabilidade ser um perturbador da técnica do corredor e a resposta do organismo ser a de tentar regular esta variação da coordenação. Outra razão levantada pelos autores, talvez seja o fato de tênis para estabilidade do pé gerar maior suporte reduzindo o stress aplicado aos tecidos através de corridas prolongadas. 

          Nestes dois trabalhos podemos ver o quanto um tênis pode ter uma capacidade protetiva dependendo de componentes relativos à anatomia do pé do corredor, assim como, do tipo de calçado, cumprindo assim o seu papel de proteção não somente no solado, ou de traumas, mas sim no controle de um movimento indesejado, como a pronação, qdo feita  a uma alta velocidade e grande amplitude. 
         

Referências Bibliográficas: 

Malisoux, L., Chambon, N., Delattre, N., Gueguen, N., Urhausen, A., & Theisen, D. (2016). Injury risk in runners using standard or motion control shoes: a randomised controlled trial with participant and assessor blinding. Br J Sports Med50(8), 481-487.

Weir, G., Wyatt, H., Van Emmerik, R., Trudeau, M. B., Willwacher, S., Brüggemann, G. P., & Hamill, J. (2019). Influence of neutral and stability athletic footwear on lower extremity coordination variability during a prolonged treadmill run in male rearfoot runners. European journal of sport science, 1-7.




domingo, 29 de março de 2020

COMO A PRONAÇÃO PODE AFETAR DIRETAMENTE A SOBRECARGA NOS MEMBROS INFERIORES DURANTE A CORRIDA

      Antes de falar do papel do tênis na pronação como prometido na ultima postagem sobre este movimento do pé (Falando de pronação), onde introduzimos a importância deste movimento durante a corrida, optamos em aprofundar um pouco mais mostrando como a pronação pode afetar os membros inferiores com a sobrecarga da corrida. 

       É esperado que conforme entremos em um condição de fadiga haja a deterioração da qualidade dos movimentos realizados sob esta condição. E na corrida isso não é diferente, até mesmo no pé. É o que mostra o artigo de Mei e colaboradores (2019), onde o movimento estudado sob fadiga é exatamente o movimento do pé em pronar. A fadiga pode provocar uma maior pronação na corrida? Se sim, como isto ocorre? Estas são perguntas ficam na cabeça de corredores e treinadores, já que existem evidências de que a pronação pode  ser um dos diversos fatores de risco para lesão, quando esta é avaliada, levando-se em consideração, a amplitude passiva deste movimento (Rodrigues e colaboradores, 2013). 

       Mei e colaboradores (2019) utilizaram diversas variáveis para identificar uma possível influência da fadiga na pronação e na força de contato nas articulações do quadril, joelho e tornozelo. Os autores verificaram que as forças a que as articulações são submetidas e as forças de contato nas articulações foram alteradas com o aumento da pronação do pé após uma corrida de 5 quilômetros. Especificando mais estes resultados, as forças no quadril  aumentaram durante a fase de apoio, acontecendo o mesmo nas forças abdutoras do joelho e a força de contato no sentido superior-inferior.



      Com relação ao tornozelo, também houve aumento da força de contato anteroposterior e superior-inferior. O Foot Posture Index (FPI), como variável de indicação da pronação na condição estática, apresentou uma correlação com as forças do joelho nas situações pré e pós corrida. Os autores sugerem que as cargas repetitivas de atividades prolongadas como a corrida, reduzem a altura do arco plantar longitudinal medial e apresenta uma postura pronada do pé em corredores de longa distância, verificados pelo mesma ferramenta (FPI).

      Em corredores recreacionais lesionados tem sido identificado uma redução na força dos flexores, abdutores e rotadores externos do quadril. Esta falta de força leva a um desequilíbrio na forças do quadril, afetando também as forças a que o joelho é submetido durante a corrida.  

      Observando pela via inferior através do FPI, este explica, parcialmente, as forças na articulação do joelho na condição de flexão e abdução, antes e após os 5k de corrida, onde com a pronação do pé as forças abdutores no joelho aumentam. O aumento da pronação tem se mostrado uma associação com cargas mediais no joelho e stress tibial durante a locomoção. 

     Sendo assim, as relações existentes entre a alteração do FPI e as forças a que cada articulação é submetida, conforme demonstrada no estudo, leva os autores a afirmarem que o FPI pode ser uma ferramenta de verificação de sobrecarga da prática da corrida em corredores recreacionais. Uma media clínica relativamente fácil de ser feita, e que pode ser uma importante informação para controlar a carga de treino do corredor, já que em uma condição de fadiga aumenta-se a pronação. 


Bibliografia: 

Rodrigues, P., TenBroek, T., & Hamill, J. (2013). Runners with anterior knee pain use a greater percentage of their available pronation range of motion. Journal of Applied Biomechanics29(2), 141-146.

Mei, Q., Gu, Y., Xiang, L., Baker, J. S., & Fernandez, J. (2019). Foot pronation contributes to altered lower extremity loading after long distance running. Frontiers in Physiology10, 573.

       

      

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

COMO A CORRIDA EM SUBIDA OU DESCIDA AFETA O GASTO ENERGÉTICO E A FORMA DE CORRER?

Em post passado (TREINAMENTO EM LADEIRA É REALMENTE IMPORTANTE PARA A ECONOMIA DE CORRIDA E PERFORMANCE?) descrevemos sobre como a corrida em subida pode auxiliar no treinamento de corrida, abordando principalmente sobre a alteração de variáveis fisiológicas. Hoje abordaremos a questão do ponto de vista da biomecânica e do gasto energético através de um artigo científico de pesquisadores japoneses e finlandeses. 

Seiki e colaboradores (2020) demonstram previamente o quanto a economia de corrida poder ser afetada por uma série de fatores biomecânicos como: padrão da pisada, o deslocamento vertical do centro de massa, o tempo de apoio e suas fases relacionadas às fases excêntricas e concêntricas da corrida, a atividade elétrica do músculo (EMG). Com tudo isso em mãos propuseram em sua investigação a quatificação das características cinemáticas e de EMG, na fase de apoio em três diferentes condições de inclinação (6, 0 e -6 graus).

Os pesquisadores verificaram que existe uma diferença significativa no custo energético nestas três condições, mas não no trabalho mecânico total, conforme demonstrada na tabela abaixo. O que muda nas condições em declinação ou inclinação do piso é a distribuição de trabalho mecânico positivo ou negativo, predominando o negativo na descida e o positivo na subida. 

Tabela 1 - Variáveis relacionadas ao consumo de oxigênio, custo energético e trabalho mecânico. 










Em termos cinemáticos o tornozelo apresentou uma maior amplitude durante a inclinação e menor na descida, mas a máxima flexão desta articulação não diferenciou em nenhuma condição. Já a angulação do joelho diferenciou somente no momento da propulsão sendo maior na inclinação e o Centro de Massa foi maior durante a inclinação. Algumas correlações foram feitas entre gasto energético e EMG no tríceps sural, com a velocidade de flexão plantar e a extensão do joelho. 

Segundo os autores, estes momentos destacados acima podem afetar a coordenação entre a movimentação de joelho e tornozelo, e consequentemente, afetar o gasto energético. O aumento da EMG demonstra isso. 




A aplicação prática desta informação depende de a relacionarmos com um post anterior (QUALQUER UM PODE CORRER COMO OS MARATONISTAS DE ALTA PERFORMANCE?) afirmando sobre uma das diferenças existentes entre corredores recreacionais e de performance, principalmente em relação à variável Centro de Massa. No estudo citado pelo post, de Preece e colaboradores (2019), os autores obtiveram como resultado uma maior elevação do centro de massa em corredores de performance, após a propulsão, comparados aos corredores recreacionais. 

Ao relacionarmos os resultados deste com o post anterior, talvez uma boa estratégia para ensinar os corredores recreacionais a entender o que é elevar o centro de massa, seja exatamente utilizar a subida, para desenvolver novas estratégias neuromotoras e transferi-las para a corrida no plano. Assim, uma melhor técnica de corrida pode levar à redução do curso energético, melhorando assim, a economia de corrida. 

Referência Bibliográfica: 
Seki, K., Kyröläinen, H., Sugimoto, K., & Enomoto, Y. (2020). Biomechanical factors affecting energy cost during running utilising different slopes. Journal of sports sciences38(1), 6-12.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

VOCÊ SE CONSIDERA UM CORREDOR DE PERFORMANCE OU RECREACIONAL?

      Como você se classifica, como um corredor de performance ou corredor recreacional? Quais parâmetros você leva em consideração para se classificar? 

      Muitas vezes é difícil obter este tipo de resposta, pois como já temos demonstrado em nossos posts, a complexidade deste mundo da corrida é elevada. Aqui neste espaço  consideramos os detalhes de performance ligados somente à aspectos da fisiologia e biomecânica, sem considerar outras áreas, portanto percebe-se que muitos pontos devem ser levados em consideração, além dos abordados neste blog. 

      Mas como gostamos de analisar a corrida mais à fundo buscando suas minucias para não apresentar a mesmice sobre a corrida, trazemos um artigo de Clermont e colaboradores (2018) cujo o objetivo foi classificar corredores e corredoras através de dados obtidos por equipamentos vestíveis (wearable technology) denominados de acelerômetros. Estes equipamentos, estão disponíveis em nossos celulares, computadores, tablets, mas também em alguns equipamentos direcionados ao publico da corrida. Eles podem nos oferecer uma série de parâmetros, e são estes a ser considerados para a classificação dos corredores(as) neste trabalho a ser apresentado. A grande vantagem é que estes parâmetros podem ser obtidos no mundo real, ou seja, no ambiente de treino e competição. 



        Em postagens anteriores já demonstramos o quanto a variável Centro de Massa (CM) é importante para a análise da técnica da corrida através da observação da Oscilação Vertical (A FORMA COMO SE CORRE (TÉCNICA) É TÃO IMPORTANTE PARA A ECONOMIA DE CORRIDA E A PERFORMANCE?  QUALQUER UM PODE CORRER COMO OS MARATONISTAS DE ALTA PERFORMANCE?) e aqui ela será novamente algo a ser considerado, mas agora através de medidas por equipamentos mais simples (acelerômetros). 

       Primeiramente 25 homens e 16 mulheres foram classificados  como competitivos ou recreacionais levando-se em consideração a idade, sexo e performance na corrida através de uma calculadora da USA Track and Field. Esta classificação se baseia no recorde mundial para a distância, sendo uma razão entre o tempo do atleta e o recorde existente para o sexo e faixa etária, tendo como dado final uma porcentagem. Aqui os autores classificaram como corredores competitivos (CC) os indivíduos com índice superior a 60% e como recreacional (CR) abaixo deste índice. 

Tabela 1 - Algumas características dos(as) corredores(as)
        Estes corredores(as) foram analisados em 5 minutos de corrida em esteira, em velocidade auto selecionada, com o acelerômetro fixado entre L3 e L5, através de cinto elásticos para não deixar balançá-lo durante a corrida. Um total de 24 variáveis foram obtidas do acelerômetro: Coeficientes de variação (desvio padrão / média x 100%) para o passo e passada. Regularidade, simetria e o pico de aceleração das ondas do acelerômetro nas direções mediolateral, vertical e anteroposterior. 



         Das 24 variáveis estudadas em ambos os sexos, 12 delas foram o suficiente para classificar os corredores entre competidores e recreacionais com 82,63% de acurácia. Já para as mulheres somente 10 variáveis foram necessárias para uma acurácia de 80,4%. Isto destaca a importância de classificação do corredor baseado na performance e treinamento para melhor refletir as diferenças cinemáticas entre homens e mulheres. 

       Corredores(as) competitivos demonstram mais consistência nos seus padrões de corrida em termos de regularidade e variabilidade. Parâmetros relacionados à simetria e ao pico de aceleração não foram tão consistentes para identificar diferenças entre competidores e recreacionais. 



         Para os corredores, a  razão para estes resultados foi justificada, através da citação de outros estudos, onde a maior regularidade na direção anteroposterior pode estar associada com mais consistência na desaceleração e aceleração do CM durante as fases de frenagem e propulsão, respectivamente, e isso pode ser exemplificado através de melhor economia de corrida em um perfil de corredor de elite. Os autores ainda destacam uma padrão mais suave de corrida nos corredores competitivos, sendo este um padrão mais seguro pela diminuição do impacto total durante a fase de frenagem de cada passo, e é claro, pela menor indução de fadiga durante a corrida. 

          Uma maior consistência no padrão de movimentos na direção mediolateral pode ser decorrente da melhora no equilíbrio geral e do tronco, correspondendo com uma redução da variabilidade na movimentação dos membros inferiores nesta direção e um padrão de movimento mais eficiente. 

       Caracterizando o corredor recreacional por uma maior variabilidade na direção mediolateral e menor regularidade na anteroposterior para a movimentação do CM tem sido associado a um padrão de corrida "de risco". Isso explicaria porque mais corredores recreacionais tem demonstrado mais lesões durante o acompanhamento durante um ano, comparado a corredores competitivos, encontrado em outro estudo citado pelos autores. 


         Já as corredoras tiveram como característica as variáveis relacionadas à regularidade e variabilidade, mas nas direções vertical e anteroposterior, respectivamente. Corredoras competitivas demonstraram maior regularidade na direção vertical e menor variabilidade na direção anteroposterior. 

        Para melhor entendimento da aplicação da coleta de dados através  de acelerômetros os autores destacam, através da citação de outros estudos, se um corredor recreacional começa a apresentar uma padrão de corrida semelhante ao corredor competitivo, este é um indicativo que as adaptações ao treinamento foram benéficas, levando a uma melhor performance na corrida e potencialmente diminuindo o risco de lesões. 

       Por outro lado, se um corredor competitivo começa a apresentar uma padrão de corrida semelhante ao corredor recreacional, isto pode ser um preditor de decréscimo de performance e aumento do risco de lesões, principalmente em joelho ou quadril. 

         Portanto é de vital importância acompanhar a sua forma de corrida para saber em que momento seu treinamento pode evoluir para um patamar superior em termos de busca por performance, ou terá que ser reduzido para poder voltar a um padrão mais eficiente, utilizando para isso os acelerômetros. 

 Referências Bibliográficas: 

Christian A. Clermont, Lauren C. Benson, Sean T. Osis, Dylan Kobsar & Reed Ferber (2018): Running patterns for male and female competitive and recreational runners based on accelerometer data. Journal of Sports Sciences.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

ALGUNS FATORES BIOMECÂNICOS NECESSÁRIOS PARA A QUEBRA DAS 2 HORAS NA MARATONA

        Na tentativa de explicar como alguns aspectos biomecânicos da corrida podem influenciar na melhora da performance (PC) e da Economia de Corrida (EC), buscamos um artigo de Hookgamer e colaboradores (2017), descrevendo quais as possíveis condições para se fazer uma maratona sub 2h, tendo-se como base o recorde da época da publicação do artigo, 2h02min57seg, do atleta Denis Kimetto, de 2014. 


           Os autores, citando outros estudos, destacam que um corredor para quebrar a barreira das 2h na maratona terá como características fisiológicas um consumo máximo de oxigênio (VO2max) de 90 mlO2 /kg.min, outra seria um consumo máximo de O2 de 84 mlO2/kg.min e também um limiar de lactato a 85% do VO2 max, além de um extraordinária economia de corrida de 181 mlO2/kg.km. 

          Os autores citam modelos de outros pesquisadores destacando variáveis importantes como o próprio VO2max, a máxima fração sustentável do VO2max por toda a corrida e o custo metabólico por quilômetro. Outro modelo propõem o mesmo VO2max, o limiar de lactato e a EC, para que o sonho da maratona SUB 2h, em prova, possa ser realizado. 

          Para a realização de tal feito há a necessidade de uma velocidade média de 21,1 km/h com o pace de 2' 51'' / km, uma velocidade 2,5% mais rápida que o recorde de Kimetto e 1,4% mais rápido que o recorde atual de Eliud Kipchoge, na maratona de Berlim, em 2018. Somente lembrando que neste ano, no evento Ineos 1:59, em Viena, no mês de outubro, a barreira das 2 h foi quebrada, mas por não ser uma prova de maratona oficial, não foi considerado o recorde para a distância desta prova. 



        Mas quando se corre ao ar livre, existe a variável ambiente que tem uma interferência muito grande onde o custo metabólico da corrida sofre a influência da resistência do ar nas velocidades aqui destacadas. Os autores citam outros trabalhos destacando a falta de linearidade entre velocidade e consumo de Oxigênio, ou seja, para melhorar a velocidade em 2,5% os autores citam pesquisas destacando uma necessidade de economia de corrida da ordem de 2,7 a 2,9%. 

        Mas para alcançar esta economia da ordem de quase 3% na eficiência do gasto de energia na corrida, há a necessidade de entendimento de como se divide o gasto energético do corredor. Sendo assim, os autores destacam a divisão do consumo de Oxigênio durante a corrida da seguinte forma: 
                - 80% ocorre por tarefas como suporte do peso corporal e propulsão;
                - 11% à respiração, trabalho cardíaco e forças de frenagem;  
                - 7% para o balanço dos membros inferiores, após a propulsão; 
                - 2% para o balanço lateral do tronco. 

           Considerando os fatores destacados acima, pode-se considerar que um meio mais fácil seria a redução da massa corporal dos corredores. Mas o grande problema é os já baixos massa corporal e percentual de gordura de corredores de elite. Esta condição impede de se alterar este importante parâmetro na busca por uma corrida mais eficiente. Mostra-se a ocorrência de alteração deste parâmetro ao acompanhar a relação massa e estatura (Índice de Massa Corpórea - BMI) dos campeões olímpicos da maratonas dos Jogos Olímpicos da era moderna, conforme visto no gráfico abaixo. 

Gráfico 1- Índice de Massa Corpórea dos campeões masculinos da Maratona Olímpica. disponível em: https://www.topendsports.com/events/summer/science/athletics-marathon.htm

            Em relação à propulsão, a uma velocidade de 5,86 m/s (21,1 km/h), a resistência do ar é de 9,2 N gerando um custo de 4,7 a 5,5 ml O2 /kg.min. Mas em um ambiente aberto isso é bem difícil de evitar. A saída é a corrida com proteção, ou atrás de outro ou outros corredor(es) como feito no INEOS (figura abaixo). Os autores citaram um trabalho demonstrando uma redução de 93% na resistência do ar quando se corre a 1 metro atrás de um único corredor, provocando uma redução do VO2 submáximo em 6,5%. Talvez este tenha sido um dos principais fatores no evento INEOS 1:59, pois a redução da resistência do ar em 36% pode melhorar a economia de corrida em 2 ml O2/kg.min, economizando os 2,7% necessários para facilitar o sucesso nos sub 2h em um atleta que corre a maratona em 2h03min. 


             Outro fator relacionado à maratona Sub 2h, é o balanço dos membros inferiores após a propulsão, ou, todo o tempo após a propulsão até o toque deste mesmo pé ao solo.  O acréscimo de massa nas regiões distais dos membros inferiores, como tênis e massa muscular, proporciona um aumento do custo metabólico. Sendo assim os pesquisadores acreditam que a anatomia do africanos com tíbias mais finas e gastrocnêmios altos e longos tendões possa auxiliar no menor peso das extremidades. 

           Outra fonte de massa extra nos membros inferiores são os calçados utilizados. A redução da cada 100g dos tênis provoca uma diminuição de quase 1% do consumo energético dos corredores para velocidades acima de 3,5 m/s (12,6 km/h). Mas, mesmo assim, com os materiais utilizados nos calçados Vaporfly no evento Breaking 2 (Hoogkamer e colaboradores, 2017 e Barnes e colaboradores, 2019) e o Alphafly utilizados no evento Ineos 1:59, utilizados por Kipchoge, favoreceram a economia de corrida prometendo uma atenuação do gasto da ordem de 4% em média. 

             Ainda sem entrar em questões cinéticas e cinemáticas, neste artigo os autores destacaram fatores biomecânicos externos como o ambiente e a massa dos membros inferiores, assim como outro fator inerente à própria anatomia do corredor. Obviamente, que demais fatores são importantes nesta busca pela quebra desta barreira das 2 horas para a maratona, mas não foram destacados aqui. 

             Para nós, "meros mortais" entende-se que os fatores aqui destacados pode ter algum significado deste que consigamos correr a velocidades relativamente maiores ao ao nível médio de corredores recreacionais. Assim, quanto maior a velocidade, mais estes fatores tem peso sobre a performance. Portanto não se preocupe com estes fatores se sua performance está abaixo dos 5' / km ou 12 km/h. Atenha-se nas questões inerentes à sua técnica e à melhora da eficiência energética de seu organismo. 


Referência Bibliográficas: 

Barnes, K. R., & Kilding, A. E. (2019). A randomized crossover study investigating the running economy of highly-trained male and female distance runners in marathon racing shoes versus track spikes. Sports Medicine49(2), 331-342.

Hoogkamer, W., Kram, R., & Arellano, C. J. (2017). How biomechanical improvements in running economy could break the 2-hour marathon barrier. Sports Medicine47(9), 1739-1750.

Hoogkamer, W., Kipp, S., Frank, J. H., Farina, E. M., Luo, G., & Kram, R. (2017). A comparison of the energetic cost of running in marathon racing shoes. Sports Medicine, 48(4), 1009-1019.

Wood, R. Anthropometric Measurements of Olympic Marathon Champions. Topend Sports Website, December 2015, https://www.topendsports.com/events/summer/science/athletics-marathon.htm, Accessed 10/17/2019







segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

A INFLUÊNCIA DA ANTROPOMETRIA NA PERFORMANCE E ECONOMIA DE CORRIDA


          É comum olharmos para um corredor de elite em provas de fundo (longa duração) e percebermos características muita peculiares a este público, como a baixa quantidade de gordura, um nível de magreza elevado, baixa massa corporal, índice de massa corporal baixo, dentre outras. Essas características auxiliam a deixar o corredor mais eficiente, pois quanto menos peso ele carrega, menos energia gastará, economizando-a para a atividade fim, no caso, a corrida. 

        Existem outros fatores mas estes relacionados à antropometria do corredor, ou seja, às suas medidas corporais em termos de comprimento, perímetro, diâmetro e volume. Apesar de não ser um consenso sobre a influência positiva destes fatores na corrida, pelo motivo das pesquisas trabalharem com grupos heterogêneos, ainda se pesquisa à respeito.




      Ao assistir ao video do post referente a este texto percebemos que existe uma diferença de estatura entre os corredores africanos participantes da Maratona de Dubai de 2019, principalmente de um dos pacemakers (Asefa) para a primeira colocada feminina no km 16 da referida prova. o que implica esta diferença de estatura, e consequentemente, do comprimento dos membros inferiores na quantidade de passos dados por cada atleta. 


         No andamento do video percebemos que cada corredor tem uma cadência diferente do outro. A que se deve isso? Opção do corredor? Não, o comprimento do passo se dá pela forma mais econômica com que cada um consegue se adaptar. Por isso vemos a atleta Chepnegetich com uma cadência tão alta e o pacemaker com maior estatura (Asefa) com uma cadência quase 14% menor. Na tabela abaixo vemos o resultados dos calculos à partir dos dados obtidos da cadência, tempo de prova da atleta Chepnegetich (2h17) e a distância da prova (42195 metros). Veja a tabela após estes cálculos: 




       Desta forma utilizamos o artigo de Laumets e colaboradores (2017) para explicar estas diferenças. Os autores investigaram as características antropométricas dos membros inferiores na Economia de Corrida (EC) e na Performance da Corrida (PC), em corredores de longa distância  europeus caucasianos.  

      Foram avaliados 13 corredores homens caucasianos da elite européia de provas de meio fundo e de provas de fundo, na esteira, até a exaustão voluntária. Foram realizadas medidas antropométricas dos membros inferiores de comprimento, determinando comprimento da coxa e perna, e relacionado com outras medidas de composição corporal relacionadas à massa corporal, estatura e comprimento dos seguimentos dos membros inferiores.  Como resultados, correlações positivas foram encontradas entre o consumo máximo de oxigênio e velocidades submáximas (14, 16 e 18 km/h), mas não houve correlação destas ou da EC com as proporções calculadas. Somente uma fraca correlação negativa do comprimento da perna com corridas submáximas a 16 km/h, demonstrando uma tendência similar nas velocidades a 14 e 18 km/h. 




        Os autores afirmam que neste estudo, as maiores medidas de comprimento da perna (do joelho para baixo), assim como um menor Índice de massa corpórea (IMC) estão relacionadas com a EC medidas nas velocidades submáximas, tendo acontecido o mesmo em corredores de alto nível do leste da África onde corredores, com maiores MMII, apresentaram maior performance, ao citar outros estudos.  Essa menor massa dos MMII juntamente com sua estrutura esguia seriam dois importantes fatores que contribuem também na EC. 

          Outro estudo relacionando questões antropométricas em corredores (Mooses e colaboradores, 2014) tb mostra a relação entre a PC e o comprimento da coxa, o comprimento de todo o membro inferior e a razão entre o comprimento de todo o membro inferior e a estatura, indicando que membro inferiores relativamente mais longos são vantajosos para a PC, dados estes demonstrados nos gráficos à seguir. 


Gráfico 1-  (A) Relação entre comprimento total dos Membros inferiores (Total leg -circulo escuro) e da coxa (Upper leg - circulos abertos) demonstrando uma leve relação direta entre aumento do comprimento da coxa e membros e aumento da performance através da pontuação da IAAF, agora World Athletics. (B) relação entre a razão comprimento dos membros inferiores com a estatura e  a performance através da pontuação da IAAF, agora World Athletics. (Mooses e colaboradores, 2014)
       Os autores tentam explicar este fato afirmando que apesar da oscilação de longos membros aumentar o custo energético, isso justificaria a necessidade de grande flexão do joelho na fase de balanço após a propulsão. Neste caso, quanto menor a massa, menor o custo energético, principalmente se a perna apresentar uma baixa proporção na massa de todo o membro inferior. Além disso, citam outros estudos afirmando que membros inferiores maiores promovem um passo mais amplo, sendo mais eficiente que o aumento da frequência de passos (cadência), promovendo uma maior EC. Mas isto somente pode ser considerado a 90% da máxima velocidade, já que à partir deste ponto a velocidade aumentará predominantemente pelo aumento da cadência. 

      Outro dado interessante do ponto de vista antropométrico, não tão científico, é a relação entre Índice de Massa Corporea (relação massa e estatura) com a performance em todas as maratonas olímpicas, demonstrando uma tendência de diminuição do IMC com o aumento da performance. 


Gráfico 2 - Índice de Massa Corpórea de cada campeão olímpico na maratona masculina.  (Wood, 2015)

      Ou seja, nesta relação entre antropometria, performance e economia de corrida pode-se concluir: o comprimento da perna e o IMC apresentam relação com a EC, já o comprimento dos membros inferiores estão relacionados com melhor PC, podendo estes dados serem utilizados para detecção de talentos ou predição de performance. Mas isso não significa que você, não tão favorecido com o comprimento de membros inferiores não possa correr bem, mas terá mais dificuldades de competir com indivíduos cujo o comprimento dos membros inferiores é maior.        


Referências Bibliográficas: 

Laumets, R., Viigipuu, K., Mooses, K., Mäestu, J., Purge, P., Pehme, A., ... & Mooses, M. (2017). Lower leg length is associated with running economy in high level caucasian distance runners. Journal of human kinetics56(1), 229-239.


Mooses, M., Mooses, K., Haile, D. W., Durussel, J., Kaasik, P., & Pitsiladis, Y. P. (2015). Dissociation between running economy and running performance in elite Kenyan distance runners. Journal of sports sciences33(2), 136-144.

Robert Wood, "Anthropometric Measurements of Olympic Marathon Champions." Topend Sports Website, December 2015, https://www.topendsports.com/events/summer/science/athletics-marathon.htm, Accessed 12/16/2019

terça-feira, 26 de novembro de 2019

UMA CONDIÇÃO DE PASSO ASSIMÉTRICA AFETA A ECONOMIA DE CORRIDA?

Muitas vezes, ao vermos uma pessoa correndo, podemos ter a impressão de que ela esteja mancando. Esta impressão é porque notamos que existe uma assimetria na forma como a pessoa corre. Esta assimetria nada mais é que uma diferenciação no tempo de cada passo  entre o pé direito e esquerdo. 

Existem situações em que a avaliação da forma como se pisa leva-se em consideração somente um dos membros, adotando a ideia da simetria entre eles, considerando-se que o movimento feito por um lado de nosso corpo  terá a mesma qualidade comparado ao outro membro não avaliado. Isso acontece por nos considerarmos completamente simétricos. Somente para se ter uma ideia em termos de pisada, Larson e colaboradores demonstraram que entre os corredores recreacionais e sub elite de uma prova de 21/42 km,  5,9% dos corredores  tinham assimetria na forma de pisar, ou seja, cada pé pisava de uma forma diferente. Era um percentual maior que os indivíduos que corriam com antepé, 1,8% com ambos os pés. 

Destacamos aqui uma assimetria bem visível. E assimetrias em que não identificamos visualmente? Quais as consequências para a nossa corrida? Será que gastamos mais energia? 



Beck e colaboradores (2018) propuseram determinar como uma corrida biomecanicamente assimetrica afeta a taxa metabólica em indivíduos sem alterações que pudessem provocar esta assimetria. 

Segundo os autores, indivíduos sem lesões adotam, naturalmente, um tempo de contato para minimizar  o seu gasto metabólico durante a corrida. A redução do tempo de contato requer músculos que possam gerar força e sustentar o peso corporal quando em contato com o solo, utilizando energia para isto. Com uma alteração do tempo de contato, e consequentemente, de capacidade elástica do músculo, altera-se também a taxa metabólica. 

Para verificar como a assimetria pode afetar o gasto energético 10 corredores (6 homens) correram em esteira instrumentada com plataforma de força, a  10 km/h, por 7 séries de 12 minutos com 5 minutos de descanso entre as séries. Cada série era feita ouvindo-se um metrônomo customizado através de programação, para que pudesse provocar assimetria entre os passos. O passo foi considerado como o tempo de contato mais o tempo de voo até o contato do próximo pé. A primeira tentativa foi para determinar qual o membro inferior predominante, a segunda e terceira para a ambientação com o uso do metrônomo em condição assimétrica e simétrica. À partir da quarta até a sétima série correu-se com o metrônomo nas condições com 0%, 7%, 14% e 21% de assimetria entre os membros, mas de forma aleatória. 



Nestas corridas foram medidas a força de reação do solo (FRS) e variaveis metabólicas através da medição de consumo de oxigênio e a assimetria foi calculada através de uma fórmula. 

Como resultado, os autores afirmam que: 
-  para cada 10% de aumento da assimetria do tempo do passo, o consumo metabólico aumentou em 3,5%; 
- para cada 10% de aumento da assimetria do tempo de contato, o metabolismo aumentou em 7,8%; 
- para cada 10% de aumento da assimetria da média da FRS no apoio, houve um aumento de 3,5% no metabolismo;
- para cada 10% de aumento da assimetria  no pico de frenagem, foi provocado um aumento de 1,3% no metabolismo; 
- para cada 10% de aumento da assimetria no pico propulsivo, houve um aumento de 2% no metabolismo; 
- para cada 10% de aumento da assimetria da rigidez do membro inferior, foi provocado um aumento de 3,9% no metabolismo; 
- para cada 10% de aumento na assimetria do trabalho mecânico externo positivo e negativo, um aumento de 1,1% e 0,9% no metabolismo, respectivamente; 
- e finalmente, uma assimetria no pico da FRS não afetou o metabolismo. 


Estes resultados confirma a hipótese dos autores de que a assimetria na passada faz com que os corredores gastem mais energia para correr a mesma distância, na mesma intensidade. Justificando os achados, os autores afirmam que os corredores participantes do estudo obtiveram um tempo de passada assimétrica pela modulação de sua força no solo, conforme visto no gráfico à seguir. 

Figura 1 - Relação entre o índice de simetria da Média da Força de Reação do solo (FRS) vertical e o índice de simetria do  tempo de passo

Para que isso acontecesse, o tempo de contato com o chão foi mantido, e a diferença encontrasse no tempo da fase aérea entre os membros inferiores. Por este motivo que nos parece que o indivíduo está mancando. Uma diferença na fase aérea, neste caso é provocada por uma maior força de um dos membros fazendo com que tenha um tempo de voo maior que o lado contrário. Isso gera um maior trabalho mecânico positivo, e consequentemente, maior gasto energético.  Somente para se ter uma ideia, uma assimetria no tempo da passada de 31,3% provocou uma aumento de 210% no trabalho mecânico dos passos mais lentos em relação aos mais curtos. 

Isto acontece pois há uma redução do uso da energia elástica no membro inferior cujo o passo é mais lento, havendo a necessidade de maior trabalho mecânico positivo para compensar a não utilização dos componentes elásticos, o que ocorre no membro cujo o passo é mais rápido. Isso explica o porque uma corrida assimetria acaba gerando uma maior gasto energético. 



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Larson, P., Higgins, E., Kaminski, J., Decker, T., Preble, J., Lyons, D., ... & Normile, A. (2011). Foot strike patterns of recreational and sub-elite runners in a long-distance road race. Journal of sports sciences29(15), 1665-1673.

Beck, O. N., Azua, E. N., & Grabowski, A. M. (2018). Step time asymmetry increases metabolic energy expenditure during running. European journal of applied physiology118(10), 2147-2154.