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segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

A INFLUÊNCIA DA ANTROPOMETRIA NA PERFORMANCE E ECONOMIA DE CORRIDA


          É comum olharmos para um corredor de elite em provas de fundo (longa duração) e percebermos características muita peculiares a este público, como a baixa quantidade de gordura, um nível de magreza elevado, baixa massa corporal, índice de massa corporal baixo, dentre outras. Essas características auxiliam a deixar o corredor mais eficiente, pois quanto menos peso ele carrega, menos energia gastará, economizando-a para a atividade fim, no caso, a corrida. 

        Existem outros fatores mas estes relacionados à antropometria do corredor, ou seja, às suas medidas corporais em termos de comprimento, perímetro, diâmetro e volume. Apesar de não ser um consenso sobre a influência positiva destes fatores na corrida, pelo motivo das pesquisas trabalharem com grupos heterogêneos, ainda se pesquisa à respeito.




      Ao assistir ao video do post referente a este texto percebemos que existe uma diferença de estatura entre os corredores africanos participantes da Maratona de Dubai de 2019, principalmente de um dos pacemakers (Asefa) para a primeira colocada feminina no km 16 da referida prova. o que implica esta diferença de estatura, e consequentemente, do comprimento dos membros inferiores na quantidade de passos dados por cada atleta. 


         No andamento do video percebemos que cada corredor tem uma cadência diferente do outro. A que se deve isso? Opção do corredor? Não, o comprimento do passo se dá pela forma mais econômica com que cada um consegue se adaptar. Por isso vemos a atleta Chepnegetich com uma cadência tão alta e o pacemaker com maior estatura (Asefa) com uma cadência quase 14% menor. Na tabela abaixo vemos o resultados dos calculos à partir dos dados obtidos da cadência, tempo de prova da atleta Chepnegetich (2h17) e a distância da prova (42195 metros). Veja a tabela após estes cálculos: 




       Desta forma utilizamos o artigo de Laumets e colaboradores (2017) para explicar estas diferenças. Os autores investigaram as características antropométricas dos membros inferiores na Economia de Corrida (EC) e na Performance da Corrida (PC), em corredores de longa distância  europeus caucasianos.  

      Foram avaliados 13 corredores homens caucasianos da elite européia de provas de meio fundo e de provas de fundo, na esteira, até a exaustão voluntária. Foram realizadas medidas antropométricas dos membros inferiores de comprimento, determinando comprimento da coxa e perna, e relacionado com outras medidas de composição corporal relacionadas à massa corporal, estatura e comprimento dos seguimentos dos membros inferiores.  Como resultados, correlações positivas foram encontradas entre o consumo máximo de oxigênio e velocidades submáximas (14, 16 e 18 km/h), mas não houve correlação destas ou da EC com as proporções calculadas. Somente uma fraca correlação negativa do comprimento da perna com corridas submáximas a 16 km/h, demonstrando uma tendência similar nas velocidades a 14 e 18 km/h. 




        Os autores afirmam que neste estudo, as maiores medidas de comprimento da perna (do joelho para baixo), assim como um menor Índice de massa corpórea (IMC) estão relacionadas com a EC medidas nas velocidades submáximas, tendo acontecido o mesmo em corredores de alto nível do leste da África onde corredores, com maiores MMII, apresentaram maior performance, ao citar outros estudos.  Essa menor massa dos MMII juntamente com sua estrutura esguia seriam dois importantes fatores que contribuem também na EC. 

          Outro estudo relacionando questões antropométricas em corredores (Mooses e colaboradores, 2014) tb mostra a relação entre a PC e o comprimento da coxa, o comprimento de todo o membro inferior e a razão entre o comprimento de todo o membro inferior e a estatura, indicando que membro inferiores relativamente mais longos são vantajosos para a PC, dados estes demonstrados nos gráficos à seguir. 


Gráfico 1-  (A) Relação entre comprimento total dos Membros inferiores (Total leg -circulo escuro) e da coxa (Upper leg - circulos abertos) demonstrando uma leve relação direta entre aumento do comprimento da coxa e membros e aumento da performance através da pontuação da IAAF, agora World Athletics. (B) relação entre a razão comprimento dos membros inferiores com a estatura e  a performance através da pontuação da IAAF, agora World Athletics. (Mooses e colaboradores, 2014)
       Os autores tentam explicar este fato afirmando que apesar da oscilação de longos membros aumentar o custo energético, isso justificaria a necessidade de grande flexão do joelho na fase de balanço após a propulsão. Neste caso, quanto menor a massa, menor o custo energético, principalmente se a perna apresentar uma baixa proporção na massa de todo o membro inferior. Além disso, citam outros estudos afirmando que membros inferiores maiores promovem um passo mais amplo, sendo mais eficiente que o aumento da frequência de passos (cadência), promovendo uma maior EC. Mas isto somente pode ser considerado a 90% da máxima velocidade, já que à partir deste ponto a velocidade aumentará predominantemente pelo aumento da cadência. 

      Outro dado interessante do ponto de vista antropométrico, não tão científico, é a relação entre Índice de Massa Corporea (relação massa e estatura) com a performance em todas as maratonas olímpicas, demonstrando uma tendência de diminuição do IMC com o aumento da performance. 


Gráfico 2 - Índice de Massa Corpórea de cada campeão olímpico na maratona masculina.  (Wood, 2015)

      Ou seja, nesta relação entre antropometria, performance e economia de corrida pode-se concluir: o comprimento da perna e o IMC apresentam relação com a EC, já o comprimento dos membros inferiores estão relacionados com melhor PC, podendo estes dados serem utilizados para detecção de talentos ou predição de performance. Mas isso não significa que você, não tão favorecido com o comprimento de membros inferiores não possa correr bem, mas terá mais dificuldades de competir com indivíduos cujo o comprimento dos membros inferiores é maior.        


Referências Bibliográficas: 

Laumets, R., Viigipuu, K., Mooses, K., Mäestu, J., Purge, P., Pehme, A., ... & Mooses, M. (2017). Lower leg length is associated with running economy in high level caucasian distance runners. Journal of human kinetics56(1), 229-239.


Mooses, M., Mooses, K., Haile, D. W., Durussel, J., Kaasik, P., & Pitsiladis, Y. P. (2015). Dissociation between running economy and running performance in elite Kenyan distance runners. Journal of sports sciences33(2), 136-144.

Robert Wood, "Anthropometric Measurements of Olympic Marathon Champions." Topend Sports Website, December 2015, https://www.topendsports.com/events/summer/science/athletics-marathon.htm, Accessed 12/16/2019

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

TREINAMENTO DE FORÇA, COMPLEX TRAINING e ECONOMIA DE CORRIDA: Como o treinamento de força pode fazer você correr mais rápido e mais longe?



Luis Felipe Milano Teixeira

Tradicionalmente, Consumo Máximo de Oxigênio (VO2Máx) e Limiares (i.e. Limiar de Lactato, Limiar Anaeróbico) são colocados como indicadores críticos em relação aos fatores fisiológicos que podem influenciar e/ou determinar a Economia de Corrida (EC) e, consequentemente, a performance de corredores. Sabe-se que a capacidade de gerar energia capaz de sustentar a demanda imposta por uma atividade de alta intensidade por longos períodos depende muito da capacidade do organismo consumir oxigênio, transportar e oxidar lactato e demais substratos energéticos.
Entretanto, sabe-se também que corredores de alto padrão possuem tais indicadores em níveis muito semelhantes, o que dificulta o uso de apenas esses indicadores para determinar a performance aeróbia.
Talvez, por esse motivo, é que o papel dos aspectos neuromusculares, como força e potência muscular, na performance de corredores de longa distância e estratégias para promoção desses tem sido tão investigada na última década. O resultado dessa mais recente preocupação em relação à performance de corredores e aumento nas publicações acadêmicas pode ser notado no fato de que corredores de rua veem aumentando sua crença em relação à relevância de sessões de treinamento de força em suas rotinas de treinamento, estratégia que era muito mal vista e, até evitada pela maioria, há alguns anos.
Contudo, apesar de haver o entendimento que desenvolver aspectos neuromusculares é fundamental para a performance em corridas de longa distância a melhor maneira de promover esse desenvolvimento ainda gera muitas contradições e incertezas, fazendo com que corredores e treinadores não consigam tirar o melhor proveito das sessões de treinamento de força para melhorar a performance na corrida de longa duração.
Nesse sentido, recentemente Li e colaboradores (2019) realizaram uma interessante investigação sobre o efeito do Complex Training (Treinamento Complexo em tradução livre) e do treinamento de força tradicional na promoção de adaptações neuromusculares , economia de corrida e performance em 5k e 10k em corredores bem treinados.
Para tal, 28 corredores bem treinados (19–23 anos; VO2máx:65,78±4,99 ml/kg/min) foram foram divididos em três grupos, a saber: i) Grupo Complex Training (CT; N=10); ii) Grupo Treinamento de Força (HRT; N=9) e; Grupo Controle (GC; N=9). Os protocolos de treinamento, independente do grupo, tiveram duração de 8 semanas. 
O complex training é um método de treinamento que alterna a realização de exercícios de força em alta intensidade com exercícios de pliometria na mesma sessão. Desse modo, os treinos do CT foram compostos por três séries de três pares de exercícios, a saber: Par 1) Agachamento e Salto sobre caixa de 40cm; Par 2) Agachamento Búlgaro e Salto unilateral (perna única) e; Par 3) Dead lift e Salto em distância de 50cm. Todos os exercícios de força foram realizados com 80-85% 1-RM e intervalos intra pares de 4minutos.
Já o HRT realizou treinamento de força idêntico ao CT, mas, sem a execução dos exercícios pliométricos. Na tentativa de equalizar o máximo possível os estímulos oferecidos ao TF e ao CT, os autores adicionaram duas séries em cada exercício, desse modo, foram realizadas 5 séries de 5 repetições com 80-85% 1-RM e intervalo de 3 minutos entre as séries para Agachamento, dead lift e Agachamento Búlgaro.
O GC realizou os mesmos exercícios resistidos dos grupos CT e TF mas com cargas reduzidas (40% 1-RM) e volume aumentado (20-30 repetições/série) com intervalo de 1 minuto entre as séries. A característica geral de cada modelo de intervenção pode ser observado na tabela 1. 


Figura 1. Programa de treinamento de força ofertado à cada um dos grupos durante 8 semanas.

Além do treinamento de força em diferentes condições (CT, HRT e GC) todos os indivíduos realizaram o mesmo treinamento de endurance que consistiu em corridas de longa distância com intensidade entre 70-85% da frequência cardíaca máxima com volume semanal total de 77,25+2,33 km.
Antes e após o período de 8 semanas do experimento todos os voluntários foram submetidos a avaliação da força muscular (1-RM) em todos os exercícios utilizados nos protocolos de treinamento, por meio do teste de salto contra movimento (CMJ) e do teste drop jump (DJ). Também foram avaliados a economia de corrida e a concentração de lactato nas velocidades de 12-16km/h, no teste de 50m e em corrida de 5k.
Os autores identificaram que tanto o grupo CT quanto o HRT obtiveram ganhos significativos (p<0,001) em força muscular nos testes de 1-RM (16,8% e 18,8%, respectivamente), no CMJ (11,2% e 8,6%, respectivamente), na economia de corrida à 14km/h (-7,6% e -4,8%, respectivamente) e na performance em 5k (-2,8% e 2%, respectivamente). Mas apenas o grupo que realizou o complex training (CT) demostrou melhora significativa (p<0,001) adicionais no DJ (12,9%), na força reativa (19,9%), na economia de corrida à 12km/h, e 16km/h (-7,3%) e redução na concentração de lactato na velocidade de 16km/h (-40,8%).
Desse modo, os autores sugerem que o complex training e o treinamento de força com cargas elevadas (˜80%1-RM) são mais eficientes que o treinamento resistido com cargas mais leves e alto volume de repetições para promover adaptações neuromusculares relevantes à melhora de performance em corredores de longa duração. Adicionalmente, puderam concluir também que existe vantagem em adotar o complex training em relação ao treinamento resistido com cargas elevadas tradicional, uma vez que essa metodologia conseguiu desenvolver a força reativa, a economia de corrida em velocidades superiores (i.e.16km/h) e redução na concentração de lactato em atividade sub-máxima constante.
Assim sendo, apesar das limitações do estudo e de inúmeras questões acerca de como manipular as diversas variáveis do treinamento de força, seja o tradicional ou complex training, que ainda pairam no ar a espera de novos estudos, o trabalho de Li et al. (2019) parece indicar claramente uma direção para as sessões de treinamento de força voltadas ao desenvolvimento da performance em corredores de rua. 
Seus dados deixam claro que o trabalho de força com cargas elevadas (˜80-85%1-RM) e poucas repetições (5-6reps) parece ser mais interessante que trabalho de força com cargas baixas (˜50-60% 1-RM) com muitas repetições (15-30reps) e que a inserção de sessões de treinamento que combinam exercício de força com cargas elevadas com exercício pliométricos (3 pares de exercícios três vezes por semana), o chamado complex training, também devem ser consideradas por corredores de rua em suas rotinas de treinamento.
Entretanto, vale destacar que o estudo investigou os efeitos do complex training e do treinamento de força de alta intensidade em indivíduos bem treinados. Apesar das vantagens demostradas pelo estudo, deve-se lembrar que essa metodologia de treinamento exige grande capacidade neuro-motora, biomecânica e fisio-biológica, pela combinação de alta intensidade e alta complexidade de execução dos movimentos, o que faz com que o risco de lesão também seja elevado e, por esse motivo, sua utilização deve estar acompanhada de refinado alinhamento com as cargas de treinamento previstas na periodização, por criterioso controle de carga de treinamento e de rigorosa avaliação sobre a relação risco-benefício relacionadas ao atleta e a sua familiaridade com a execução dos exercícios.

Referências

Li F, Wang R, Newton RU, Sutton D, Shi Y, Ding H. 2019. Effects of complex training versus heavy resistance training on neuromuscular adaptation, running economy and 5-km performance in well-trained distance runners. PeerJ 7:e6787 http://doi.org/10.7717/peerj.6787