segunda-feira, 28 de outubro de 2019

NOSSAS ASSIMETRIAS PODEM AFETAR A SEGURANÇA DA NOSSA CORRIDA?


Todos sabemos que não somos totalmente simétricos. Sempre existe alguma diferença entre as estruturas em pares de nosso corpo. Aliás, muito se fala que a beleza de um corpo se dá exatamente pela simetria existente entre as estruturas. E dentro da funcionalidade de nossas estruturas, como estas assimetrias podem nos afetar em termos estáticos e dinâmicos? E ainda mais, como esta assimetria afetará músculos, ossos e articulações em uma condição de fadiga? Pode haver uma potencialização de problemas quando estamos cansados?

Pensando nisso, Radzak e colaboradores (2018) pesquisaram exatamente o efeito de nossas assimetrias na corrida em condições com e sem fadiga, acreditando que a condição de cansaço possa potencializar ainda mais as diferenças existentes entre os membros inferiores (MMII) a a consequência disso possa ser o aumento da possibilidade de lesão.

A pesquisa foi realizada com 20 jovens saudáveis, sendo 6 mulheres, sendo levantados dados cinéticos e cinemáticos (Análise 3D) da marcha e corrida descansados, e da corrida em estado de fadiga. Todos correram em uma pista de 18 metros sendo filmados com câmeras infravermelho, e tendo coletadas a força com que tocavam seus pés ao solo.



Das 33 variáveis cinéticas e cinemáticas, somente 1 não apresentou diferença entre os membros na condição descansada. Estes resultados caracterizam a amostra como apresentando assimetria entre os membros inferiores antes de colocá-los sob a condição de fadiga. Já sob esta condição, 30 variáveis apresentaram diferença estatística entre os membros.
Já a comparação entre a condição descansada e cansada os autores utilizaram uma relação angular definida em outro estudo citado pelos autores, utilizando uma razão entre o valor obtido para cada variável do MMII esquerdo e do direito. Quando este valor é mais próximo de O (zero), mais simétrico é o movimento.

Tabela 1 - Diferenças naos angulos de simetria entre a condição sem fadiga (rested) e com fadiga . 

         Neste estudo, a fadiga provocou a diminuição em 34% da assimetria da complacência do MMII (Stiffness - Kvert) mas o aumento dos valores absolutos desta variável;  a diminuição da assimetria na taxa de impacto (loading rate) em 35%, e também da assimetria do pico da força de frenagem(free moment at peak breaking force) em 36%, e aumentou em 91% a assimetria da excursão da rotação interna do joelho (knee internal rotation excursion).
Com relação a complacência e a taxa de impacto dos MMII, os autores afirmam que o aumento desta variável corresponde a um aumento significante na força vertical da reação do solo e da taxa de carga, indicando uma rápida transferência de força. A diminuição desta variável corresponde ao aumento do tempo de apoio atrasando o momento do pico da força vertical da reação do solo.
Quando se observa os resultados relativos ao joelho mais especificamente quanto à sua rigidez e a sua rotação interna, verifica-se que o joelho esquerdo teve estas variáveis diminuídas após os atletas serem avaliados em condição de fadiga, não acontecendo o mesmo com o esquerdo. Os autores tentam explicar esta diferença levando em consideração a questão da dominância de membros, mas não conseguem concluir nada à respeito já que a literatura sobre a questão não tem um posicionamento concreto.



Segundo os autores, algumas lesões como fratura de stress tibial, lesões por overuse  e osteoartrite no joelho, estão associadas a algumas das variáveis aqui analisadas como loading rate e o momento de adução;  a máxima velocidade na adução do joelho e excursão da rotação interna do joelho; e momento de adução no joelho e velocidade de joelho varo, respectivamente.  Apesar de trabalharem com somente indivíduos saudáveis propõem o acompanhamento destes corredores ao longo do tempo, no intuito de verificar o comportamento destas variáveis a longo prazo e suas consequências ao organismo do corredor.
Resumindo, muitas das variáveis previamente associadas com lesões nos MMII foram encontradas como assimétricas na condição descansada e sob fadiga.  A magnitude da assimetria em algumas variáveis diminuiu com a fadiga, outras tornaram-se mais assimétricas e o joelho parece ser a região mais suscetível ao aumento da magnitude das assimetrias.


Referência Bibliográfica: 


Radzak, K. N., Putnam, A. M., Tamura, K., Hetzler, R. K., & Stickley, C. D. (2017). Asymmetry between lower limbs during rested and fatigued state running gait in healthy individuals. Gait & posture51, 268-274.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

QUALQUER UM PODE CORRER COMO OS MARATONISTAS DE ALTA PERFORMANCE?

          Em tempos das quebras da barreira das duas horas na Maratona masculina e de recorde de 16 anos da Maratona feminina, fica uma vontade de correr mais rápido e buscar o seu recorde pessoal... Mas a pergunta que fica é: será que qualquer corredor consegue correr como os corredores de elite? O que eles têm de diferente que pouquíssimas pessoas conseguem chegar neste patamar?

Fig. 1- Eliud Kipchoge e seu tempo no 159 Ineos Challenge 2019

Fig 2- Brigid Kosgei com o tempo recorde na Maratona de Chicago 2019

      Existe um primeiro fator de extrema importância e totalmente visível que é o somatotipo, vulgarmente  conhecido como biotipo.  Uma das principais características de um corredor de elite é ser magro e leve, com uma condição de volume muscular não tão grande como atletas de outras modalidades.

        O Índice de Massa Corpórea pode ser um indicativo de qual seria o corpo ideal considerando a elite da corrida de rua. Certo de que é um índice pouco preciso por fazer uma relação somente entre massa corporal e estatura, mas fornece um indicativo interessante. O ponto negativo deste índice é a incapacidade de identificar a composição dos tecidos corporais, não sendo capaz de diferenciar a quantidade de massa de gordura e massa isenta de gordura. 

        Vemos no gráfico à seguir a evolução do IMC dos atletas campeões olímpicos na Maratona. Percebe-se uma tendência à diminuição do IMC sabendo-se que os tempos foram diminuindo ao longo do tempo. Obviamente que este não é o único fator, mas digamos que um requisito importante. Se fosse o fator principal, qualquer modelo de passarela poderia ser uma maratonista. Mas muito pelo contrário, a ausência de adaptações é tamanha, que no geral, mal conseguem correr 1 km.

Gráfico 1- Índice de Massa Corpórea dos campeões masculinos da Maratona Olímpica. disponível em: https://www.topendsports.com/events/summer/science/athletics-marathon.htm

        Claro que um fator preponderante é a forma como se corre, a técnica de cada corredor.  Um estudo recente, de Preece e colaboradores, preocupou-se em comparar a técnica de corrida de corredores de alta performance (AP) e recreacionais, correndo fora da esteira. A pergunta: existe diferença na técnica da corrida de atletas de alta performance e recreacionais? Quais variáveis biomecânicas indicam a diferença entre estas duas populações, caso exista esta diferença ?

        Foram comparados 14 atletas de alta performance (AP) (6 mulheres) com media de 32 minutos nos 10k e 14 atletas recreacionais (8 homens) com media de 43 minutos nesta distância. Foi realizada uma análise 3D na corrida destes atletas em 4 velocidades: 11,9 ; 14; 17,3 e 20,1 km/h. Esta corrida foi realizada em uma pista de 32 metros e isso o diferencia de outros estudos citados que tentaram comparar a técnica dessas duas populações de corredores, mas na esteira.

          Em termos de resultados desta comparação, uma informação importante é a de que as variáveis biomecânicas analisadas demonstraram uma grande dependência da velocidade. Ou seja, a  manifestação destas variáveis em corredores recreacionais só ocorrerá em velocidades maiores, demonstrando que não dá para ficar olhando o que o atleta de elite faz, para nós, amadores, fazermos igual em velocidades mais baixas.

         E o que foi diferente, do ponto de vista biomecânico, entre os dois grupos? Os corredores AP apresentaram maior força vertical, maior velocidade vertical do centro de massa  (CoM) na propulsão,  maior tempo de vôo, maior perpendicularidade da tíbia no momento do toque do pé no solo, flexão do joelho antecipada e maior antes do contato com o solo, maior proporção de corredores de antepé, maior proximidade do pé em relação ao CoM.

Tabela 1 - Número de corredores com o tipo de pisada em retropé, a cada velocidade testada. 

      Segundo os autores, 9 variáveis das 16 levantadas explicaram 99% da variação existente entre os grupos elite e recreacionais.

       Dentre as variáveis estudadas os autores destacam que os atletas de alta performance em endurance mantém o comprimento de passada pela geração de um maior impulso vertical, isso foi provocado por um maior componente vertical do CoM após a propulsão, e consequentemente, aterrissando com um joelho mais extendido, mas com o pé mais proximo da prejeção do quadril. 

      Este maior componente vertical do CoM, principalmente na fase aérea, faz com que o atleta tenha mais tempo para trabalhar com uma amplitude elevada de passada, assim como, uma frequência de passada maior. Para que consiga correr melhor, o membro que tocará ao solo terá que ter maior rigidez, pois uma flexão excessiva proporcionará uma maior oscilação vertical da pelve durante o apoio, aumentando o tempo de contato, e diminuindo o componente elástico dos músculos na fase de apoio. Portanto, outro componente a ser analisado, de forma separada, é a oscilação da pelve na fase aérea e na fase de apoio. 

      Outra sugestão é que a alteração do aspecto relacionado à angulação da tíbia no contato inicial, já destacado em outro post que fizemos anteriormente sobre a técnica e a economia de corrida (OUTROS PONTOS DA TÉCNICA DA CORRIDA NECESSÁRIOS AO ENTENDIMENTO DA ECONOMIA DE CORRIDA E DA PERFORMANCE), pode corresponder às alterações em outras variáveis identificadas como importantes da diferença entre as duas populações de corredores. 

          Vemos abaixo a comparação no dois grupos em algumas variáveis mensuradas. 

Gráficos da média dos resultados obtidos nos grupos Alta performance (linha sólida) e recreacional (linha tracejada)  todos em velocidade de 14 km/h .  2a - Força de reação do solo ;  2b - Ângulo do Joelho ; 2c - Centro de pressão no pé ; 2d - Momento de força no tornozelo
        Durante o início do ciclo da passada, a evolução da Força de Reação do Solo (GRF, 2a) foi relativamente similar, diferenciando em seu pico, sendo maior no grupo AP,  devido a predominância da pisada com antepé. O momento do tornozelo (2d) também foi mais elevado durante o mesmo tempo pela mesma razão da corrida com antepé, para aumentar o uso da energia elástica no tendão calcâneo. A consequência disto foi o posicionamento do Centro de Pressão (CoP, 2c) no pé, estando mais anteriorizado neste grupo. Outra consequência foi o maior deslocamento do CoM na fase aérea aumentando o tempo de voo, permitindo o posicionamento mais vertical da tíbia, diminuindo a possibilidade da passada muito longa (overstriding). 

      Portanto percebe-se que para correr como os atletas de alta performance há a necessidade de algumas alterações em termos biomecânicos, para que se consiga chegar a maiores velocidades. Não é simplesmente a questão da frequência e amplitude de passada, mas principalmente em relação ao aumento do impulso vertical após a propulsão. Claro que não estamos adicionando a isso outras questões do ponto de vista da fisiologia, que seriam mais tantas outras variáveis, além das 9 encontradas neste estudo. 

       Acreditamos que esteja claro o quão complexo é acertar na prescrição em termos de performance. Fica a dica: seja mais crítico com relação às receitas prontas que oferecem resultado por questões aparentemente tão simples de serem modificadas. É sempre muito complexo modificar padrão de movimento na corrida, e consequentemente a performance. 

Bibliografia:


Preece, S.J., Bramah, C. and Mason, D., 2019. The biomechanical characteristics of high-performance endurance running. European Journal of Sport Science19(6), pp.784-792.

Robert Wood, Anthropometric Measurements of Olympic Marathon Champions. Topend Sports Website, December 2015, https://www.topendsports.com/events/summer/science/athletics-marathon.htm, Accessed 10/17/2019





  

terça-feira, 1 de outubro de 2019

OUTROS PONTOS DA TÉCNICA DA CORRIDA NECESSÁRIOS AO ENTENDIMENTO DA ECONOMIA DE CORRIDA E DA PERFORMANCE

Continuando a dissecação do artigo de Folland e colaboradores (2017) sobre outros pontos a serem destacados na biomecânica da corrida relacionados à Economia de corrida (EC) e performance,  aqui iniciaremos com a mínima velocidade da pelve, pois esta variável tem total influência na frenagem. 

Para os corredores de elite do grupo analisado esta variável teve um peso ainda maior na EC e na performance, que demonstrou correlação com maior gasto energético e pior performance.  Eles explicam que esta relação da frenagem com estas duas variáveis não é pelo simples ato de frear ao tocar o pé no solo, a qual envolve as forças passivas de impacto, assim como a atividade muscular excêntrica. Uma grande frenagem na fase inicial também provoca uma necessidade de maior aceleração propulsiva para reacelerar para manter a velocidade de corrida. Esta aceleração envolve mais gasto energético por aumento nas ações concêntricas necessárias para compensar uma grande frenagem. 

Outra variável, a postura do tronco, com sua pequena projeção à frente teve uma pequena correlação com performance, contradizendo a outros estudos apresentados pelos autores, onde esta variavel estava associada com a EC. 

A performance teve correlação também com alguns parâmetros da passada com o Duty Factor (DF- relação entre o tempo de contato com o solo e o tempo de voo de cada um dos pés). Segundo os autores, o baixo valor obtido no DF são subprodutos dos determinantes da performance na corrida, ou mais provável, que a cinemática ideal dacorrida seja determinada pela otimização de fatores como o DF, além do que simplesmente minimizar a EC. 

Além disso, outro fator importante, mas do ponto de vista cinemático, foi o menor comprimento de passada e a sua maior frequencia, mas correlacionados à EC. Os autores  sugeriram que uma passada muito ampla (overstriding) leva a uma corrida pouco econômica. A justificativa fornecida pelos autores foi através da citação de um estudo  afirmando sobre um aumento na rigidez do membro inferior em contato com o chão, ocorrida em uma condição de frequencia de passada menor, leva a uma redução na absorção de energia e, assim, reduz a Oscilação vertical (OV), comentada no post anterior (http://bit.ly/2n4dTD6). 

Os ângulos da dorsiflexão do pé  e da tibia em relação a uma linha vertical, assim como, a amplitude de movimentação de quadril e joelho durante o contato do pé com o solo, foram negativamente relacionadas à performance. 

Figura 1 - Figura de palito ilustrando os angulos mensurados na avaliação cinemática do estudo. (Modificado de Folland e colaboradores, 2017).
Destacando alguns outros fatores relacionados á técnica da corrida, os autores afirmam que ela pode ser consistente independente da velocidade. Segundo os autores, o corredor com menor angulo na tíbia no momento do contato com o solo entre 10 e 12 km/h também terá ângulos similares a velocidades maiores. 

Para terminar, Folland e colaboradores (2017) concluem que variáveis cinemáticas explicam cerca de 39% da EC e 31% da performance. Recomendam a atenção de atletas e técnicos para os parâmetros relativos à passada para otimizar a movimentação da pelve e consequentemente aumentar a performance. 


Referência Bibliográfica: 

Folland, J. P., Allen, S. J., Black, M. I., Handsaker, J. C., & Forrester, S. E. (2017). Running technique is an important component of running economy and performance. Medicine and science in sports and exercise49(7), 1412.






domingo, 22 de setembro de 2019

A FORMA COMO SE CORRE (TÉCNICA) É TÃO IMPORTANTE PARA A ECONOMIA DE CORRIDA E A PERFORMANCE?


Ao observarmos a corrida de um atleta de alto nível parece que seu esforço é bem menor que o nosso quando estamos correndo, muitas vezes à metade da velocidade. O que mais conseguimos observar é a forma como ele se movimenta, dentro de nossa limitação de visualizar os movimentos a somente 30 quadros por segundo. 

Muitos movimentos que ocorrem na corrida não são vistos a olhos nus sendo necessária uma avaliação mais detalhada com cameras de alta velocidade ou sistemas que filmam o movimento em 3 dimensões. Mas além disso, é importante saber se os movimentos realizados podem ser eficientes o suficiente para gerar performance. Para isso é de vital importância a análise da técnica do corredor, em detalhes muitas vezes não imaginados por qualquer um, já que correr é uma atividade que fazemos há tanto tempo, com enorme domínio, e de forma tão eficiente. Será? 

Por isso, a correção técnica tem sido bastante estudada por meio dos métodos de controle de padrões técnicos (corrida com antepé, mediopé ou retropé, Chi Running e Pose Running, dentre outros) (Goss e Gross, 2012). 




            A tentativa da alteração da técnica ocorre pela observância de parâmetros biomecânicos como a forma de tocar o pé ao solo, comprimento e frequência de passada, posicionamento de tronco, etc. Lieberman et al (2010) relatando sobre as análises cinemáticas e cinéticas realizadas em nativos no Quênia, que corriam descalços, e corredores da cidade, correndo calçados, mostraram que em superfícies mais rígidas, a corrida com antepé era geradora de uma menor força de impacto comparados aos corredores calçados. Esta diferença se dá pela forma que tocavam o solo. Ao final, afirmam que a corrida com antepé e mediopé são as formas que mais protegem os membros inferiores de uma intensidade elevada de impacto relacionado às lesões, como o experimentado por grande parte dos corredores, principalmente as ocorridas no joelho.

            
Dentre os métodos citados anteriormente, um deles o Chi Running, é descrito como um método que busca o alinhamento do corpo, mente e o movimento para frente. Neste método os corredores são instruídos a aterrissar com o mediopé, o corpo com leve inclinação à frente, passadas mais curtas com o foco nos membros inferiores relaxados (Goss e Gross, 2012)





Já o Pose Running se baseia no contato com meio e antepé, minimizando o tempo de contato, colocando o pé no solo, e não batendo-o no chão tão vigorosamente. Visa melhorar o aproveitamento da energia elástica havendo a redução do impacto com a projeção do tronco à frente (Goss e Gross, 2012).



Ok, mas e a questão energética? Qual a relação do gasto de energia durante a corrida com a técnica? Qual a relação da performance com a técnica da corrida? Estas perguntas foram feitas por Folland e colaboradores (2017). Neste interessante estudo, eles avaliaram quase 100 homens e mulheres, com tempo médio de 36' e 43', respectivamente, para os 10k, e com uma frequência de treino entre 4 a 5 vezes / semana. Foi feito um levantamento antropométrico e composição corporal, series de corridas máximas e submáximas para analisar as trocas respiratórias e mais de 30 variáveis biomecânicas. 




Um modelo de regressão linear (técnica estatística) identificou que quase 40% da variância na economia de corrida foi explicada por uma combinação da variação da oscilação vertical normalizada pela estatura, em 28%, pelo menor ângulo do joelho no momento do toque no solo, em 9%, e finalmente, pela mínima velocidade horizontal da pelve, em 2,5%  (ver gráfico 1).  

Já em termos de performance considerando os tempos dos 10 km dos corredores avaliados, a mesma técnica estatística obteve que 30 % da variância neste fator (performance) foi explicada por uma combinação do ângulo da tíbia no toque do calcanhar no solo, em 10%, pela mínima velocidade horizontal da pelve, em 9,9%, pela relação entre o tempo de contato e o tempo de voo, denominada de Duty Factor, em 6,4%, e finalmente,  pela média do ângulo de extensão do tronco durante toda a passada, em 4,2% (ver gráfico1). 



Gráfico 1 - Demonstração da percentual de contribuição de cada variável destacada na composição da Economia de Corrida e na performance (melhor tempo dos 10k). (Modificado de Folland e colaboradores, 2017)
Legenda: DF - Duty Factor - relação entre tempo de contato do pé com o solo e tempo em fase aérea; xTAmean - média do ângulo de extensão do tronco durante toda a passada; VyPmin - mínima velocidade horizontal da pelve; xKAGC,min - menor ângulo do joelho no momento do toque no solo; AzPGC,H - variação da oscilação vertical normalizada pela estatura; xSATD - angulo da tíbia no toque do calcanhar no solo.

Descrevendo estas variáveis destacadas por Folland e colaboadores (2017), eles acreditam que a oscilação vertical (OV) da pelve é a variável que melhor reflete a rigidez dos membros inferiores durante a fase de apoio, já que a oscilação do centro de massa pode ter a influência dos movimentos dos braços, tronco e cabeça. Uma maior oscilação vertical envolve mais trabalho contra a gravidade, aumentando o tempo e a força necessárias para se contrapor a esta excessiva oscilação. Sendo assim, membros com complacência controlada (não muito rígido, nem tão pouco, muito flexivel), conseguem oferecer um retorno aceitável em termos de aproveitamento ótimo da energia elástica, aliada a uma menor quantidade de energia concêntrica proveniente dos músculos envolvidos. Isto acaba tendo uma ótima relação com a EC. 

Com relação às variaveis cinemáticas pode-se destacar, principalmente no momento do toque do pé ao chão, um joelho mais estendido e um maior angulo da tíbia em relação ao solo, assim como de dorsi flexão, trazendo uma maior amplitude de movimento durante todo o tempo de contato com o solo, e consequentemente, aumentando-o. O reflexo disto poderia ser um maior gasto energético através de uma maior uso da energia excêntrica e, posteriormente, da concêntrica, para reacelerar. 

Enfim, dado o apresentado pelos autores, a preocupação maior com a técnica de corrida tem que ser com os parâmetros envolvidos na EC e na performance, neste post destacamos a oscilação vertical e alguns parâmetros cinemáticos. No próximo post continuaremos a mostrar outras variáveis tão importantes quanto a estas. 


Referências Bibliográficas: 


Goss, D. L., & Gross, M. T. (2012). A review of mechanics and injury trends among various running styles. NORTH CAROLINA UNIV AT CHAPEL HILL.

Lieberman, D. E., Venkadesan, M., Werbel, W. A., Daoud, A. I., D’andrea, S., Davis, I. S., ... & Pitsiladis, Y. (2010). Foot strike patterns and collision forces in habitually barefoot versus shod runners. Nature463(7280), 531.

Folland, J. P., Allen, S. J., Black, M. I., Handsaker, J. C., & Forrester, S. E. (2017). Running technique is an important component of running economy and performance. Medicine and science in sports and exercise49(7), 1412.




sexta-feira, 6 de setembro de 2019

MELHORA DE 4% NA ECONOMIA DE CORRIDA GERA ALTERAÇÕES CINEMÁTICAS?

Continuando o post (O TÊNIS PODE INFLUENCIAR NA ECONOMIA DE CORRIDA? ) onde apresentamos o trabalho comparando um protótipo de um tênis com dois outros modelos, hoje seguiremos a mesma linha, mas  com outro artigo descrevendo se a economia de corrida realmente é obtida com o protótipo nas condições de tênis, comercializável, já no mercado. 

Figura 1- Componentes da entressola do NVF. 
Somente para lembrar que a tecnologia deste calçado apresenta uma placa de fibra de carbono (plate) em entre duas camadas de Poliuretano expandido como apresentados na figura ao lado.

A diferença no estudo de Barnes e colaboradores (2018) e de Hookgamer e colaboradores (2017), citado na postagem anterior, foi a comparação ter sido realizada com um terceiro calçado sendo uma sapatilha apropriada à pista de atletismo, e o outro calçado de uma empresa concorrente, um modelo posterior ao utilizado na quebra do recorde da maratona em Berlim (ver figura 2). 

Neste caso, os homens tinham tempos sub 15' e 30' em provas de 5 e 10 quilômetros, respectivamente e as mulheres sub 17' e sub 35' nas mesmas provas. Ao correr em 4 velocidades pode-se ver qual o comportamento do consumo de oxigênio com o uso de cada tênis e também o comportamento de algumas variáveis biomecânicas como cadência, tamanho de passada, tempo de contato e tempo na fase aérea. Vamos aos resultados. 

O tênis em questão melhorou a economia de corrida a uma média de 4,2% comparado com ao tênis da marca concorrente. A variação desta economia entre os 24 atletas (homens e mulheres)  foi entre 1,72 a 7,15%, demonstrando uma variabilidade individual considerável. 

Com a equalização da massa dos tênis, já que o da concorrente era mais pesado, a economia de corrida foi da ordem de 2,9%. Na comparação com o outro modelo da marca, lembrando que este era uma sapatilha utilizada em pista de atletismo, muito próximo de um tênis minimalista, a economia do consumo de oxigênio foi de 2,6%.  Veja o comportamento individual e da média do grupo no gráfico abaixo. 


Gráfico 1 -  Consumo de oxigênio individual (traços em cinza) e a média do grupo (em preto) em cada velocidade e com o uso de cada calçado. 
Figura 2 - Modelos dos tênis comparados, onde o NVF+ teve um acréscimo de 25 a 35 gramas na massa do NVF para igualar a sua massa com o ADI.
Outra classe de variáveis foi as relacionadas à biomecânica, onde o estudo analisou o tempo de contato, tempo de voo, a cadência e o comprimento de passada. Neste estudo os homens apresentaram maior tempo de contato e fase aérea, menor cadência e maior comprimento de passada quando utilizando o NVF e o NVF+. 

Nas velocidades utilizadas, o tempo de contato foi 2,5%, 1,6% e 1,2% maior com NVF comparado ao NZM, nas velocidades 14, 16 e 18 km/h, respectivamente. Comparando com o ADI estas diferenças no tempo de contato foram da ordem de 0,2 , 0,9 e 0,8% mais longos  com NVF. 

Para as mulheres, não houve diferença entre NVF e NZM nas velocidade de 14 e 15 km/h, mas apresentou um tempo de contato 0,76% menor, favorável ao NVF, e de 1,8% menor comparado ao ADI em todas as velocidades. 

Quanto à cadência, ela foi 1,1% e 1,2% menor utilizando o NVF comparando ao NZM nas velocidades de 16 e 18 km/h, nos homens.  Já para as mulheres, houve diferença entre os mesmo modelos, da ordem de 0,9% , 1,7% e 1% sendo uma menor cadência para o NVF comparado ao NZM. Comparando o  ADI com o NZM esta variável foi 1,4%, 1,7% e 1% menor  no ADI, nas velocidades 14, 15 e 16 km/h, respectivamente. 

Com relação ao comprimento da passada, NVF apresentou esta variável 0,7% maior a 14km/h e nas demais velocidades não foi diferente do modelo ADI. Quando comparado ao NZM, houve diferença nas maiores velocidades, 16 e 18 km/h, da ordem de 1,3% e 1,2%, respectivamente. O mesmo aconteceu com as mulheres para esta variável. 




Com todas estas informações os autores mostraram a possibilidade de uma melhora da economia de corrida com o uso deste tênis com uma tecnologia diferenciada em sua entressola. Mas o que os autores efetivamente não mostraram é se houve uma alteração na forma de pisar durante os testes ao utilizar o NZM, por exemplo. Segundo os autores, 5 dos 24 atletas tinham uma característica de corrida com antepé ou mediopé, não sendo possível efetuar comparações entre o tipo de pisada com o uso destes calçados e a economia de corrida. 

Um fator não mencionado é que ao correr com estas sapatilhas tende-se a modificar a pisada pelo menos para meiopé, já que a quantidade de borracha na região do calcanhar é pequena o que levaria a uma mudança, principalmente nas velocidades mais elevadas. Veja um pouco sobre este assunto em nosso post (ALTERAR O TIPO DE PISADA É BENÉFICO AO CORREDOR?)

Outro ponto questionado é: se observarmos a construção do NVF e a configuração da fibra de carbono, percebe-se que talvez o maior aproveitamento da resiliência desta placa seja exatamente na corrida com antepé. Na corrida com retropé talvez haja um certo favorecimento somente  após o médio apoio, fase em que há a transição do quadril em uma posição atrás do pé para frente do pé. Esta transição é a troca da fase de frenagem para a fase de propulsão. Talvez um aprofundamento desta pesquisa possa ser a verificação se este tênis é capaz de melhorar a economia de corrida em qualquer tipo de pisada. 


Referências Bibliográficas: 

Barnes, K. R., & Kilding, A. E. (2018). A randomized crossover study investigating the running economy of highly-trained male and female distance runners in marathon racing shoes versus track spikes. Sports Medicine49(2), 331-342.

Hoogkamer, W., Kipp, S., Frank, J. H., Farina, E. M., Luo, G., & Kram, R. (2017). A comparison of the energetic cost of running in marathon racing shoes. Sports Medicine48(4), 1009-1019.


sexta-feira, 30 de agosto de 2019

TREINAMENTO DE FORÇA, COMPLEX TRAINING e ECONOMIA DE CORRIDA: Como o treinamento de força pode fazer você correr mais rápido e mais longe?



Luis Felipe Milano Teixeira

Tradicionalmente, Consumo Máximo de Oxigênio (VO2Máx) e Limiares (i.e. Limiar de Lactato, Limiar Anaeróbico) são colocados como indicadores críticos em relação aos fatores fisiológicos que podem influenciar e/ou determinar a Economia de Corrida (EC) e, consequentemente, a performance de corredores. Sabe-se que a capacidade de gerar energia capaz de sustentar a demanda imposta por uma atividade de alta intensidade por longos períodos depende muito da capacidade do organismo consumir oxigênio, transportar e oxidar lactato e demais substratos energéticos.
Entretanto, sabe-se também que corredores de alto padrão possuem tais indicadores em níveis muito semelhantes, o que dificulta o uso de apenas esses indicadores para determinar a performance aeróbia.
Talvez, por esse motivo, é que o papel dos aspectos neuromusculares, como força e potência muscular, na performance de corredores de longa distância e estratégias para promoção desses tem sido tão investigada na última década. O resultado dessa mais recente preocupação em relação à performance de corredores e aumento nas publicações acadêmicas pode ser notado no fato de que corredores de rua veem aumentando sua crença em relação à relevância de sessões de treinamento de força em suas rotinas de treinamento, estratégia que era muito mal vista e, até evitada pela maioria, há alguns anos.
Contudo, apesar de haver o entendimento que desenvolver aspectos neuromusculares é fundamental para a performance em corridas de longa distância a melhor maneira de promover esse desenvolvimento ainda gera muitas contradições e incertezas, fazendo com que corredores e treinadores não consigam tirar o melhor proveito das sessões de treinamento de força para melhorar a performance na corrida de longa duração.
Nesse sentido, recentemente Li e colaboradores (2019) realizaram uma interessante investigação sobre o efeito do Complex Training (Treinamento Complexo em tradução livre) e do treinamento de força tradicional na promoção de adaptações neuromusculares , economia de corrida e performance em 5k e 10k em corredores bem treinados.
Para tal, 28 corredores bem treinados (19–23 anos; VO2máx:65,78±4,99 ml/kg/min) foram foram divididos em três grupos, a saber: i) Grupo Complex Training (CT; N=10); ii) Grupo Treinamento de Força (HRT; N=9) e; Grupo Controle (GC; N=9). Os protocolos de treinamento, independente do grupo, tiveram duração de 8 semanas. 
O complex training é um método de treinamento que alterna a realização de exercícios de força em alta intensidade com exercícios de pliometria na mesma sessão. Desse modo, os treinos do CT foram compostos por três séries de três pares de exercícios, a saber: Par 1) Agachamento e Salto sobre caixa de 40cm; Par 2) Agachamento Búlgaro e Salto unilateral (perna única) e; Par 3) Dead lift e Salto em distância de 50cm. Todos os exercícios de força foram realizados com 80-85% 1-RM e intervalos intra pares de 4minutos.
Já o HRT realizou treinamento de força idêntico ao CT, mas, sem a execução dos exercícios pliométricos. Na tentativa de equalizar o máximo possível os estímulos oferecidos ao TF e ao CT, os autores adicionaram duas séries em cada exercício, desse modo, foram realizadas 5 séries de 5 repetições com 80-85% 1-RM e intervalo de 3 minutos entre as séries para Agachamento, dead lift e Agachamento Búlgaro.
O GC realizou os mesmos exercícios resistidos dos grupos CT e TF mas com cargas reduzidas (40% 1-RM) e volume aumentado (20-30 repetições/série) com intervalo de 1 minuto entre as séries. A característica geral de cada modelo de intervenção pode ser observado na tabela 1. 


Figura 1. Programa de treinamento de força ofertado à cada um dos grupos durante 8 semanas.

Além do treinamento de força em diferentes condições (CT, HRT e GC) todos os indivíduos realizaram o mesmo treinamento de endurance que consistiu em corridas de longa distância com intensidade entre 70-85% da frequência cardíaca máxima com volume semanal total de 77,25+2,33 km.
Antes e após o período de 8 semanas do experimento todos os voluntários foram submetidos a avaliação da força muscular (1-RM) em todos os exercícios utilizados nos protocolos de treinamento, por meio do teste de salto contra movimento (CMJ) e do teste drop jump (DJ). Também foram avaliados a economia de corrida e a concentração de lactato nas velocidades de 12-16km/h, no teste de 50m e em corrida de 5k.
Os autores identificaram que tanto o grupo CT quanto o HRT obtiveram ganhos significativos (p<0,001) em força muscular nos testes de 1-RM (16,8% e 18,8%, respectivamente), no CMJ (11,2% e 8,6%, respectivamente), na economia de corrida à 14km/h (-7,6% e -4,8%, respectivamente) e na performance em 5k (-2,8% e 2%, respectivamente). Mas apenas o grupo que realizou o complex training (CT) demostrou melhora significativa (p<0,001) adicionais no DJ (12,9%), na força reativa (19,9%), na economia de corrida à 12km/h, e 16km/h (-7,3%) e redução na concentração de lactato na velocidade de 16km/h (-40,8%).
Desse modo, os autores sugerem que o complex training e o treinamento de força com cargas elevadas (˜80%1-RM) são mais eficientes que o treinamento resistido com cargas mais leves e alto volume de repetições para promover adaptações neuromusculares relevantes à melhora de performance em corredores de longa duração. Adicionalmente, puderam concluir também que existe vantagem em adotar o complex training em relação ao treinamento resistido com cargas elevadas tradicional, uma vez que essa metodologia conseguiu desenvolver a força reativa, a economia de corrida em velocidades superiores (i.e.16km/h) e redução na concentração de lactato em atividade sub-máxima constante.
Assim sendo, apesar das limitações do estudo e de inúmeras questões acerca de como manipular as diversas variáveis do treinamento de força, seja o tradicional ou complex training, que ainda pairam no ar a espera de novos estudos, o trabalho de Li et al. (2019) parece indicar claramente uma direção para as sessões de treinamento de força voltadas ao desenvolvimento da performance em corredores de rua. 
Seus dados deixam claro que o trabalho de força com cargas elevadas (˜80-85%1-RM) e poucas repetições (5-6reps) parece ser mais interessante que trabalho de força com cargas baixas (˜50-60% 1-RM) com muitas repetições (15-30reps) e que a inserção de sessões de treinamento que combinam exercício de força com cargas elevadas com exercício pliométricos (3 pares de exercícios três vezes por semana), o chamado complex training, também devem ser consideradas por corredores de rua em suas rotinas de treinamento.
Entretanto, vale destacar que o estudo investigou os efeitos do complex training e do treinamento de força de alta intensidade em indivíduos bem treinados. Apesar das vantagens demostradas pelo estudo, deve-se lembrar que essa metodologia de treinamento exige grande capacidade neuro-motora, biomecânica e fisio-biológica, pela combinação de alta intensidade e alta complexidade de execução dos movimentos, o que faz com que o risco de lesão também seja elevado e, por esse motivo, sua utilização deve estar acompanhada de refinado alinhamento com as cargas de treinamento previstas na periodização, por criterioso controle de carga de treinamento e de rigorosa avaliação sobre a relação risco-benefício relacionadas ao atleta e a sua familiaridade com a execução dos exercícios.

Referências

Li F, Wang R, Newton RU, Sutton D, Shi Y, Ding H. 2019. Effects of complex training versus heavy resistance training on neuromuscular adaptation, running economy and 5-km performance in well-trained distance runners. PeerJ 7:e6787 http://doi.org/10.7717/peerj.6787

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

O TÊNIS PODE INFLUENCIAR NA ECONOMIA DE CORRIDA? PODE AJUDAR A MELHORAR A PERFORMANCE?

Todos nós que corremos temos uma certa veneração pelo calçado que utilizamos acreditando que ele possa fazer muita diferença em termos de performance e proteção. Mais recentemente, uma nova linha de pensamento sobre o uso ou não de calçado vem tomando corpo, afirmando que nosso pé é capaz de amortecer o impacto da corrida. Esta "filosofia" de comportamento defende este formato, pois tendemos a modificar o tipo de pisada para antepé. Ainda afirma-se que nesta condição podemos ter maior performance já que a massa do calçado ou sua ausência proporciona uma maior economia de corrida (ENTENDENDO O CONCEITO DE ECONOMIA DE CORRIDA). 

Através da compilação de diferentes estudos (meta-análise), feita por Cheung e colaboradores (2016) verificou-se  os efeitos de tipos de calçado e a sua não utilização, no consumo de oxigênio. Um total de 13 estudos foram escolhidos, de acordo com alguns critérios, à partir de uma busca de 2328 trabalhos publicados. Este trabalho, comparando o uso de um tênis tradicional e a corrida descalça, verificou uma maior economia de corrida para a condição descalça, comparação feita em 7 dos 13 trabalhos considerados. Isto também aconteceu, favoravelmente aos tênis minimalistas, e 6  dos 13 trabalhos que comparam os tênis minimalistas e os tradicionais.  E na última comparação, descalços e minimalistas,  a maior economia de corrida foi favorável aos minimalistas, em 4 dos 13 trabalhos. 




Mas em condição de fadiga, como fica esta possibilidade de melhorar a performance? O tipo de tênis faz diferença? Blair (2019) demonstrou que o quando os corredores avaliados utilizaram o calçado minimalista obtiveram uma média de 6 a 7 segundos mais rápidos em tiros de 1000 metros, em um protocolo de fadiga utilizado no estudo. 




E as novas tecnologias na construção de calçados? Como elas se comportam em termo de economia de corrida? Existe uma busca constante por tênis leves, com amortecimento, confortáveis e com uma certa rigidez longitudinal, variáveis que podem afetar a economia de corrida. Para se ter uma idéia, considerando somente a massa do calçado, para cada 100g do tênis há o aumento em 1% no consumo de energia (Frederick, 1984). 

Outro fator que as marcas vem buscando é a possibilidade de que o material utilizado em sua construção possa proporcionar  até mesmo uma propulsão além da realizada pela força muscular. Mais recentemente, uma importante marca está veiculando a informação de que o mais novo modelo de tênis chega a proporcionar uma economia de energia de até 4%. Buscando trabalhos que mostrassem isso de forma científica encontramos dois artigos: um demonstrando o protótipo da marca e o outro já analisando-o após o seu lançamento. 

Hoogkamer e colaboradores (2018), citando dois outros autores, comentaram sobre duas importantes propriedades dos calçados, principalmente relativo às entressolas, relacionando-as como complacentes, e normalmente macias. Outro conceito apresentado por eles é o de resiliência, definido como percentual da energia estocada que pode retornar como movimento. Com estes dois conceitos, comentaram sobre o aumento do custo energético quando o tênis ou piso apresentam complacência mas com baixa resiliência. O ideal seria apresentar uma alta resiliência, ou seja, um grande retorno de energia. 


Fig 2 - Composição da entressola do protótipo estudo no artigo de Hoogkamer e colaboradores (2018)
Com este preceito foi desenvolvido um protótipo de tênis de corrida que combina uma entressola complacente e resiliente através de uma placa rígida de fibra de carbono (fig. 2 - plate) em sua composição. Hoogkamer e colaboradores (2018) demonstraram uma redução no consumo de oxigênio da ordem de 4%, com o uso de um calçado protótipo,  em três velocidades diferentes em corridas de 5 minutos, comparado a dois outros modelos de calçados tradicionais, mesmo gerando uma potencia relativa bem semelhante. Os individuos que participaram eram atletas (SUB 31' nos 10 km). Este calçado apresentou uma complacência duas vezes maior e uma resilência cerca de 8 e 30% maior que os outros dois modelos, um da própria marca e outro de uma concorrente, respectivamente, ambos direcionados para maratona. 


Fig. 3 - Comparação do custo energético de três tipos de calçados protótipo com placa de fibra de carbono na entressola (NP), tênis direcionado para maratona da mesma marca do protótipo (NS) e tênis da concorrente para maratona (AB) 

Fig.4 -  Modelos de tênis comparados no estudo de Hoogkamer et al. (2018) - NP - Protótipo. 

Parece que o futuro para os tênis de corrida pode ter um salto de evolução nos próximos anos, onde o objetivo primário de absorção pode não ser mais a maior busca das empresas, mas sim a possibilidade que seu desenvolvimento ajude a melhora da performance. Isso não poderia ser um doping tecnológico como foram as roupas de natação na década passada? O que vcs acham? 

Somente para apimentar a discussão sobre este artigo que apresenta o protótipo, três de seus autores tem ligação com a fabricante, dois como funcionários e um como consultor. 

No próximo post mostraremos o outro trabalho científico à respeito deste calçado, estudando-o não mais como protótipo, mas sim como um calçado comercialmente presente. 



Referências Bibliográficas: 

Blair, J. F. (2018). The effect of minimalist footwear on running economy following exercise-induced fatigue (Doctoral dissertation, Memorial University of Newfoundland). 

Cheung, R. T., & Ngai, S. P. (2016). Effects of footwear on running economy in distance runners: A meta-analytical review. Journal of science and medicine in sport19(3), 260-266.

Frederick, E. C. (1984). Physiological and ergonomics factors in running shoe design. Applied ergonomics15(4), 281-287.

Hoogkamer, W., Kipp, S., Frank, J. H., Farina, E. M., Luo, G., & Kram, R. (2018). A comparison of the energetic cost of running in marathon racing shoes. Sports Medicine, 48(4), 1009-1019.